domingo, 10 de maio de 2020

40 dias

Sobreviver ao fim do mundo
sem perder a esperança.

Como?

Se a violência hospeda o gozo
e a memória abraça o esquecimento
frente ao cotidiano de corpos
lançados à vala comum
dia após dia?

A cada amanhecer nos guarda
a devastadora tarefa de contar os corpos
lançados pela tsunami da noite anterior,

mas há ainda os negacionistas
das mais diversas seitas,
os que creem no vírus
como infortúnio comunista.

Alardeiam estarem vazios
os milhares de caixões
mandados às covas
a cada alvorecer,
como se encenássemos 
uma mórbida
ficção.

Não bastasse a crua morte
soprando aos ouvidos,
sofremos cá ainda
a morbidez espantosa
dos fascismos cotidianos.




.......

 "É preciso estar atento e forte,
não temos tempo de temer a morte"



40 dias se passaram desde quando escrevi aqui pela primeira vez e os mortos saltaram de 39 mil para 265 mil no mundo.  No Brasil saímos de 200 em 01 de abril para 11.123 perdas hoje.

Estabeleci uma rotina a qual me apeguei para não sucumbir. Saio de casa uma vez por semana apenas. Hoje foi dia. Acordamos, tomamos café e fomos caminhar no alto do bairro Mangabeiras, aos pés da Serra do Curral. Olhar para aquele verde, respirar aquele ar, ouvir aquele silêncio e retornar para suportar mais uma semana. De lá seguimos para o supermercado e retornamos para casa. Há quatro semanas repetimos este pequeno ritual. De segunda a sexta trabalho oito horas por dia para cumprir as rotinas do Pnud. Tenho conseguido fazer atividades aeróbicas em casa pelo menos quatro vezes por semana, de manhã. À noite pratico yoga e meditação e esta semana conclui a leitura do Mulheres que correm com lobos, da Clarissa Pinkola Estés, que se tornou uma companhia calorosa neste primeiro mês de quarentena.

Não sofri nenhuma perda de ente ou amigo. Queria acreditar que isso não irá acontecer, mas há uma luta cotidiana contra os maus pensamentos, que se materializam como pesadelos quando cerro os olhos e a consciência. O inconsciente me põe diante de sangue e multidões. Também minha mãe de vez em quando aparece nos sonhos. A realidade é devastadora. A saudade do meu pai aumenta, bem como o temor de que este vírus o alcance e eu não possa encontrá-lo de novo neste plano. Que esta peste o não alcance, pois seria fatal, com todos os cuidados que já precisa ter com a sua frágil vida. Tento afastar a dor, tento manter a mente livre do pânico, tento desviar-me, mas medo é matéria orgânica desta realidade. Painho se esconde na casa de uma tia, na zona rural de Vitória da Conquista, no sertão baiano, e como eu gostaria de entrar em um avião e ir lá passar São João ao seu lado na roça. Queria acender uma fogueira ao seu lado, esquentar o corpo no fogo e espantar o inverno severo que se abateu sobre nós.