sexta-feira, 2 de abril de 2021

MARICE


O telefone tocou hoje de manhã. 
Olhei pelo visor, era Ari.
Meu coração gelou. 
Medo dos ventos de notícias ruins.
Atendo ou não atendo?
Ari chorava.
- Fabi, a Marice se foi.
- De covid?
- Sim.
- Quando?
- Hoje cedo.
- Como foi?
- Faltou vaga de UTI.
-Ela estava internada desde quando?
- Não sei direito, Fabi, ainda estão chegando as notícias.

Enquanto Ari falava eu entrava no facebook da Marice. Algumas notícias já, de despedida. Eu nem sabia que a Marice estava de covid. Eu nem sabia que Marice estava internada. Eu nem sabia. 

Agora é assim, chega de todos os lugares, de todas as conversas, de todas as casas, de todas as relações.

Chegou em todas as famílias, já? Talvez esteja a 2 camadas? 3? Me lembro de quando ainda vinha vindo pela Europa, pelos aviões, agora está aqui, hospedada no quarto ao lado.

Passeio pelas fotos da Marice pelo facebook. 

Marice estará entre os mortos contabilizados na sexta-feira da paixão.  

O Brasil é o país que mais mata por covid hoje. Sim, que mais mata! 
Há estratégia de genocídio para que estejamos onde estamos hoje. 
Há infalível gestão para a produção dos calabouços. 

não faltarão covas no chão. 
não faltarão caixões. 

325.559 mil em todo o país.
3.637 somente ontem. 

Marice é o nome escondido atrás de um desses assassinatos por omissão perpetrado por este governo de morte no dia hoje, logo mais contabilizado e veiculado na televisão. Até quando?

Beijos no seu coração, Marice.

De cá eu
ainda sem lágrima
ainda sem credo
ainda sem chão.

Fabi