sábado, 22 de maio de 2021

maior que o infinito é o meu quintal

 

Minha casa é um universo 

cheio de bichos, sabedorias

e delicadezas como esse casal 

de passarinhos de peito branco

que fez ninho na árvore onde 

de manhã me guardo do sol


Tem um céu inteiro 

em cima do meu quintal

e a noite todas as estrelas 

de todos os tempos e galáxias

me vem saudar uma sinfonia 

de infinita beleza e silêncio


Todas as luas cabem na minha varanda

nova crescente cheia e minguante

mas elas brincam de esconde esconde

e as vezes preciso dar a volta no terreiro 

pra saber em qual parte da escuridão

me esperam a sorrir


Além do meu pai 

que come um abacate 

debaixo do pé de pinha

tenho como companhia

um calango que passa 

o dia pelo muro a passear 

e às vezes me saúda com um 

brilho no olhar

e um breve olá


e uma civilização de formigas

que carrega toneladas de folhas

para o andar de baixo da terra

onde vivem e se escondem 

do sereno

para não gripar


Tem um cacto que agora

 se abre em flores vermelhas

tem capim cidreira

tem pé de limão

e inda outro dia 

nasceu, que alegria!,

um pé de pitanga.


É preciso saber cuidar 

desse cosmo

com quem compartilho 

o meu habitat

aguar as plantas

contar as estrelas

segredar com a lua

dourar a pele ao sol

e se atentar pra não pisar 

no calango e no formigueiro


é preciso aprender a respirar 

cada dia devagar, 

profundamente,


saber curtir o friozinho 

que se avizinha

e esperar pelo dia 

que já há de chegar

de tomar quentão

comer canjica 

e se esquentar 

na fogueira de são joão.




sábado, 8 de maio de 2021

SALTIMBANCO

 

O ato instante sem forma.

O quadro intuição sem régua.

A personagem atuação sem gesto.


O que não me serve esteve sempre guardado

e o que me cabe, 

                        intempestiva 

                        passagem.


Meu improviso não é meu, 

é retalho no tabuleiro

e vem antes,  bem antes de mim,

inscrito na garganta como eco ancestral.


A poesia mal dita não arma cavalete, atira pedras

na rima fácil e tropeça sôfrega

como sobre trilhos desencarrilhados.


Pigarreio e lanço uma praga

aos que operam os refletores,

a luz me cega e erro o passo 

no dia em que acreditava plena

em aplausos.


Ponho a mão sobre os olhos

e em meio a sombras

enxergo uma casa repleta de corpos

ávidos por meu mais simplório texto.


Silêncio. Uma campainha.

Corro para o fundo do palco.

Intervalo.


Foi me garantido um tempo?

Como a um preso um banho de sol?

Como a um cego uma vista para o mar?

Como a um famélico um prato de comida?

Como a uma deusa o dom da criação?


Inspiro longamente aliviada

e expiro exortando os diabos


Os bastidores são como uma imensa noite

em que a insônia não me veio visitar.


Os bastidores guardam corredores 

de onde se é possível avistar

pequenos feixes de luz 

no fim do túnel.


O sol que antevejo lá fora 

porta mais calor

do que os abraços aqui dentro.


Avisto um recomeço.


Afinal,

há saída desse espetáculo

em que interpreto

este ser que inda hoje

desconheço?



quinta-feira, 6 de maio de 2021

RASO DA CATARINA

 

os dias pesam toneladas

se arrastam e me chacoalham


na pele se inscrevem profundos acidentes

e a água que era muita agora falta pra uma lágrima


- ando seca, de verdade.


uma dor na lombar 

uma falta de ar

um pólipo retirado do intestino

ondas de calores e frios

dores articulares

insônia enxaqueca boca seca

e de novo

falta de ar


o coração, 

disse a cardiologista, 

anda um pouco mais fraco

do que o recomendado

- vou te pedir um raio x do tórax


o riso mais curto

os sonhos soturnos

as caminhadas mais longas

para fazer desmoronar 

as pálpebras ao me deitar


faltam abraços 

e quase já não reconheço 

em mim um sorriso 

- a alegria se escondeu 


 me enrosco no tempo

em estado de desenraizamento


é noite


lá fora a mesma neblina milenar sobre Conquista

encobre as terras onde posso sentir pulsarem

minhas ancestrais


onde estás, minha mãe,

onde estás, Paulo Tiago

que não aqui para atravessarem

comigo esta imensa tempestade,

essa, quem diria,

apocalíptica travessia?



PAI

 

Meu pai não respondia aos comandos 
ou seus atos se desenrolavam
no tempo de um bicho preguiça

e eu na velocidade dos ventos 
ávida por resposta 
passei a observar os sinais
para cultivar como broto 
pequeno 
a sua vida

os sinais vinham dos olhos, 
da gesticulação dos lábios 
de onde há mais de década 
não se ouvia voz,

os sinais vinham do intestino,
se haviam aberto ou não,
da pressão arterial
se acima de 15 ou abaixo de 9,
da glicemia,
ou do sódio que beirava 127 
e precisava alcançar 135

os sinais vinham do desejo 
de comer macaxeira,
tomar café com leite
chupar rapadura
fazer a barba 
e aparar as sombrancelhas,
escovar os dentes e conseguir
mesmo com um jato ralo
fazer xixi




sábado, 1 de maio de 2021

INSPIRAÇÃO


a palavra morre obtusa

como um pássaro

como um gato

como uma folha

como um redemoinho

quando é chegada a hora

ou mesmo antes quando não é chegada 

também


as vezes morre a palavra apenas 

porque não há nada mais

por fazer


como este céu nublado

inda meia hora antes

estrelado


ou porque ainda

descuidou a boca 

de qualquer verbo, grito ou prosa

e dormiu bêbada sufocada no sofá

porque sentido mesmo, frente às dores, qual será?


antes mesmo de se firmar

ali onde se debatia em murmúrio

se redimiu a palavra 

em disritmia e

silêncio 


a nossa sina é viver pra ver

todo este céu se apagar


eu não sou do mar

eu não sou do mar


sexta-feira, 2 de abril de 2021

MARICE


O telefone tocou hoje de manhã. 
Olhei pelo visor, era Ari.
Meu coração gelou. 
Medo dos ventos de notícias ruins.
Atendo ou não atendo?
Ari chorava.
- Fabi, a Marice se foi.
- De covid?
- Sim.
- Quando?
- Hoje cedo.
- Como foi?
- Faltou vaga de UTI.
-Ela estava internada desde quando?
- Não sei direito, Fabi, ainda estão chegando as notícias.

Enquanto Ari falava eu entrava no facebook da Marice. Algumas notícias já, de despedida. Eu nem sabia que a Marice estava de covid. Eu nem sabia que Marice estava internada. Eu nem sabia. 

Agora é assim, chega de todos os lugares, de todas as conversas, de todas as casas, de todas as relações.

Chegou em todas as famílias, já? Talvez esteja a 2 camadas? 3? Me lembro de quando ainda vinha vindo pela Europa, pelos aviões, agora está aqui, hospedada no quarto ao lado.

Passeio pelas fotos da Marice pelo facebook. 

Marice estará entre os mortos contabilizados na sexta-feira da paixão.  

O Brasil é o país que mais mata por covid hoje. Sim, que mais mata! 
Há estratégia de genocídio para que estejamos onde estamos hoje. 
Há infalível gestão para a produção dos calabouços. 

não faltarão covas no chão. 
não faltarão caixões. 

325.559 mil em todo o país.
3.637 somente ontem. 

Marice é o nome escondido atrás de um desses assassinatos por omissão perpetrado por este governo de morte no dia hoje, logo mais contabilizado e veiculado na televisão. Até quando?

Beijos no seu coração, Marice.

De cá eu
ainda sem lágrima
ainda sem credo
ainda sem chão.

Fabi


domingo, 22 de novembro de 2020

22 de novembro

 

A poesia de ontem

Inda hoje me arrepia.

 

Poderia apagar

cada letra,

desdizer,

mas o que ali se fez

foi em mim revelado

como intuição.

 

A verdade é que a escrita

é um tipo de catarse.

 

Não sei escrever o sol, o rio, o mar.

 

Quando há sol

e a luz me toca a tez,

quando há rio

e o fluxo me leva ao mar,

quando há mar

e uma onda me salga o olhar,

nasce dentro sereno o silêncio.

 

O silêncio é o meu estado de oração.

 

A palavra é pus,

exortação.

 

A palavra quando grita a verdade,

tivesse eu uma pá,  enterrava.

 

Mas não se enterra

um raio de sol,

o sentido de um rio

não se entrerra,

não se enterra

o movimento de um mar.

 

A palavra é este estado

raio, sentido, atravessamento

e deitada em sua superfície

como em um divã

aguardo ávida o próximo

dito, movimento.



sábado, 21 de novembro de 2020

21 de novembro de 1977

 

A tristeza que sinto

tem a mesma cor leitosa

que carrego no nome

e me colore a pele.

 

É a tristeza de um eu sem povo,

de um corpo sem território.

 

A tristeza que me circunda

nasceu comigo 

e foi parida antes de mim.

 

Mesmo minha mãe, 

que tinha traços indígenas,

trazia em si esse nó na garganta

que hoje sei,

atravessou também a minha avó

e antes a minha tataravó,

laçada e arrancada da sua terra

para servir a um homem branco.

 

Sou a mais pálida de todas essas mulheres

que compõe a minha ancestralidade

e nesta linha de embranquecimento

herdei este sentimento.

 

Sou eu desde lá a mais triste?

 

E agora

este calor que me toma o corpo

a esta altura da vida

anuncia o arrebol

da semente.

 

Não haverá broto.


Neste corpo

cessará a dor

que vem de antes,

que cesse em mim.

 

Cumpro a profecia

que inda menina

jurei para minha mãe

e para mim:

 

Não terei filhos, mãe.

Essa tristeza nossa 

cessará em mim.

 

Serei a última de nós,

de toda nossa encarnação,

a libertação, a superação,

sentido primevo

e autêntico não.




domingo, 11 de outubro de 2020

uso máscara, logo penso

 

Em 17 de outubro farão exatos 07 meses que estou de quarentena. A última vez que escrevi foi em 17 de julho, há quase 3 meses.  Neste tempo chegamos a mais de 1 milhão de mortos no mundo e 150 mil no Brasil. Alguns sinais de vacinas aparecem mas a previsão é de que por aqui só comece a ser aplicada universalmente em seis meses e isso significa mais de 01 ano em estado de hibernação.

 

Independente deste campo de guerra instaurado que continua a matar uma média de 500 pessoas neste país todos os dias, retomam-se não apenas as atividades profissionais, o que é compreensível devido à necessidade de subsistência de grande parcela da população, como também os encontros sociais, as aglutinações nos bares, os eventos noturnos. Este viver intensamente o hoje como se não houvesse amanhã assusta. Há aí um misto de pulsão-de-morte e foda-se-o-resto.  Feito esses machos escrotos que antes de suicidar matam uma mulher. Não basta morrer, é preciso também levar alguém consigo.

 

A morte,

este terreno fértil

de transcendência,

é esvaziado de sentido,

despossuído de afeto.

 

Como se isso não bastasse, ardemos em fogo. 23 mil Km2 somente no Pantanal foram queimados nos últimos dias.  Houveram queimadas na Chapada dos Veadeiros em Goiás e agora queimam também a Serra do Curral em Minas e a Chapada Diamantina na Bahia. Não se trata de uma mera fatalidade, a se somar com a pandemia. Em ambos os casos, há uma negligência proposital de um estado fascista. O calor e o clima seco tornam a quarentena ainda mais aflitiva, asfixiante, claustrofóbica.

 

Me mudei para uma casinha de fundo, com terreiro, buscando um pouco de ar, de luz, de árvore. A casa é uma entidade viva e nela meus gatos ganharam terra e telhado. Varrer as folhas secas do terreiro, aguar as plantas, podar, plantar, e colher da horta tornaram-se rotinas cotidianas, imprimindo uma organicidade no corpo, antes enclausurado em um apartamento.

 

Continuo trabalhando de casa em Belo Horizonte, até que me chamem para retornar as atividades em Brasília. O trabalho remoto coincide com o tempo de quarentena. A saudade dos amigos e familiares aperta, as tensões com os casos de parentes e amigos próximos contaminados se expandem, sem contar as crises de depressão, ansiedade, adoecimentos diversos que se manifestam.

 

Hoje tire uma crise de choro enquanto praticava yoga, a mais intensa de toda a pandemia. Cansaço acumulado, esgotamento, transbordamento, estado líquido. Coincide com a chegada de uma fina chuva, que cai tímida desde ontem.

 

No mais, usar máscara se tornou ideológico.

 

Se uso máscara, sou comunista.

 

Não sei pra que rumo

vamos.

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

respira

 

Sou este ser que lacrimeja
de ínfimo e talvez nostálgico lamento,
como uma aranha
a tecer a própria voz.

Aqui o dia caiu.

O sol e o azul, do sofá
e este ato de poder escrever
é ainda sopro úmido, 
 
um ventilar.
 
 
 

quinta-feira, 30 de julho de 2020

Fernanda

Nos conhecemos há pouco mais
de um ano,
no projeto que inda hoje me emprega
e nossa relação se afirmou
por meio de uma singela afinidade:
o ofício de costurar folhas.

Logo nos primeiros dias
ela nos presenteou com uma agendinha
produzida pelas próprias mãos.

Me lembro inda hoje o dia.
Ela passou de mesa em mesa
entregando para cada uma seu mimo
e quando chegou em mim,
a retive ao lado.

Revelei ali, tímida,
como quem descobre na outra
a mesma embriaguez
que a faz respirar,
no ano anterior
ter eu dado vida a brochuras,
mas eram inda desajeitadas,
como uma criança
a não se saber firmar.

E confessei inda o desejo
de que o meu primeiro
livro de poesias
fosse artesanalmente colhido
e cada exemplar carregasse
uma composição inédita
para ele bordado.

Pedi que ela um dia
me ensinasse
a ser tão precisa artesã
e confiamos num futuro próximo
um encontro de tecelãs.

Também lhe confiei
que este amor por cadernos
me fazia colecioná-los intocados,
incapaz de batizá-los
com um rabisco sequer,
como se qualquer palavra
pousada no silêncio de uma página
a ferisse em rachaduras.

O caderno impoluto medita.

Neste dia em que batizamos
o nosso segredo,
encomendei três novos livretos
e ela só me entregou dois
porque a sobrecarga do ganha-pão
não a permitiu costurar terceiro.

Aquele que ela não entregou
virou promessa estendida
para todo mês que vem,
motivo de gargalhadas
e desculpas esfarrapadas
para eu ir ter com ela
prosear no meio do expediente
e de quebra ganhar abraços.

Admirava o primor do acabamento
de cada  novo esculpido,
a eleição do tecido para a capa,
a cor da linha para a borda,
a precisão no corte das folhagens
e ela com um sorriso quente acolhia
os elogios que como água eu a banhava.

Um desses cadernos é hoje
habitat de poemas meus.

Na última vez que nos falamos
manifestei o meu carinho
e admiração por seu existir.
Já vivíamos sob o manto denso
da pandemia e o gélido vento
das despedidas.

Fernanda é a primeira vítima de convid
dentro do meu mundo de afetos.

Penso nela dias antes
pelos seus próprios pés
se dirigindo ao hospital,
depois de ligar para a mãe,
a namorada
e meia dúzia de amigas pra dizer
_ Vai ficar tudo bem.

Partiu depois de dias
em luta internada.

Não chorei a sua passagem.

Há um oco
como se qualquer lágrima ou dor
por tão insignificante desrespeitasse
a imensidão da sua existência.

Te guardarei em mim, Fê.
E também comigo guardarei
o teu sorriso mais sincero
de cumplicidade e delicadeza,
que sabia se abrir feito girassol
quando acolhida por um raio de luz.




sexta-feira, 17 de julho de 2020

120 DIAS

Chegamos a 601.000 mortos. 
Enquanto os Estados Unidos lideram a assombrosa primeira posição com 140.000, o Brasil enterrou até ontem 77.000 vidas. Mas isso não é resultado de uma trágica fatalidade, apenas.  Reflete a soma de centenas de decisões políticas cotidianas incisivas, categóricas, perversamente maquinadas para a morte. O quanto se morre no Brasil sequer pode ser acolhido como omissão. Trata-se de um poder de estado orquestrado para a eliminação daqueles que considera inadequados. Chacina. 

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Hiberno física e psicologicamente

como um esquilo,
um morcego, um ouriço,
um rato-silvestre,
ou um qualquer
animal homeotermo
na travessia deste denso inverno.

Abandonei a tv, o facebook
e os grupos de whatsApp,
me recolhi ao orgânico,
ao que posso ler com as mãos,
à densidade do ébano,
aos aromas, à leitura, à escrita,
aos dedos sobre o piano,
ao aprender cotidiano
sobre viver.

O mundo me assusta.
Parece tudo errado,
tudo virado
e um denso desejo de justiça
me consome.

Desejo é pulsão de vida
como o vermelho, 
o quente
e o sangue.

Hiberno como Perséfone
à espreita de uma próxima 
primavera.


quarta-feira, 15 de julho de 2020

insônia



Só expressa quem sente.

Mas e se o tédio ou o amor,
a fúria, o estupor
ou o estado aum
o absorve
sem um levante consciente?

A arte só retém
o que da realidade
arranca nos dentes

e deixa escapar
em desalinho o que nela
era ausente.


quinta-feira, 2 de julho de 2020

espelho


 
Nesta noite me veio visitar
uma velha sem alegrias, nostalgias
e destemperanças.

Este ser enrugado
e desconhecido,
de cabelos índios muito longos
que no sonho aos olhos de um eu 
sequer se parecia,
de olhar pro chão
e caverna no peito,
carrega dentro de si
o ser que em mim
nascia.

Em uma casa solitária a vagar
com um copo de barro
caminha pausado,
como quem pode cair
do precipício instaurado
pelo próprio passo.

Em último lance,
firme como se
previamente pensado,
bebe alguns goles do copo e
derrama todo o resto do líquido
encharcando o sofá
onde logo em seguida se deita
de barriga para baixo.

Sem pensar ou já muito antes premeditado
em seguida risca um fósforo
e em um átimo
o corpo arde
em chamas.

Eu acordo
como de um susto
e coração acelerado.

Esta velha que nem sabia existir,
antes mesmo de se apresentar
ou como fundamento
para o nosso laço,
sem ínfimo lamento
e como num sopro
instaura  primevo ato:

expurgar o medo,
restaurar o tato.


sábado, 13 de junho de 2020

Carta pra tentar entender



Um ato de despedida
acende cada gota de orvalho,
cada ínfimo tempo,
cada olhar,
cada gesto,
cada abraço.

As histórias interrompidas
se amontoam,
o beijo frustrado,
o coração partido,
a filha sem mãe,
a mulher sem marido,
a neta sem vó,
o jantar abandonado.

Saiu de casa com falta de ar
para proteger os seus,
para se resguardar
e esperava voltar.

Olhou pro lado em um átimo
de consciência, estava
só e entubada.
O último suspiro, solitário
não abrigou ínfima
despedida.

O corpo gélido foi posto num saco
e jogado em um buraco,
terra lançada por um trator,
sem lápide ou flor,
enterro sem velório,
missa fúnebre
de tão vazia e insossa,
sem choro, templo oco,
indolor.

E agora inda esse cheiro,
inda tuas coisas quentes
no guarda-roupa e esparramadas
e uma vela de sete dias pela senhora acendida
antes de sair e até agora fazendo sombras
na parede da sala.

e seu vulto a rondar a casa
de dia e inda depois, de noite
e na hora que tu acordava e coava o café
no alvorecer da madrugada.

Rezo e acendo do último respiro
da sua, uma nova vela
que é para fazer
cada uma de nós
entender:

Tu e eu,
quem está viva
e quem jaz,
que diferença faz?

90 DIAS




400 mil mortos no mundo
40 mil mortos no Brasil

*************

 
Sim, sou eu, Bia Lile.
E este é o meu país, com suas chagas e mortos.
E  estes são meus escritos agnósticos.
E esta é a minha pulsão,
meu uivo raiva e respiro,
minha perplexidade.

Me sei ainda viva, é verdade.

Mas minha sanidade transita
entre opostos,
lambe o céu num respiro
depois mergulha fundo
em asfixia e autoflagelo.

É bom viver para ver?
Posso eu sobreviver e testemunhar
a miséria que se instaura e nos arrasta,
para além da morte morrida,
a morte matada
do povo preto, índio, pobre
desta e de quantas outras
e próximas gerações?

Posso eu voltar a sorrir
depois de tanto me faltar ar?
E tudo isso há de passar?
E como ousar esquecer
E como ousar respirar
E como ousar hospedar
de novo um horizonte,
um céu e um mar?


domingo, 10 de maio de 2020

40 dias

Sobreviver ao fim do mundo
sem perder a esperança.

Como?

Se a violência hospeda o gozo
e a memória abraça o esquecimento
frente ao cotidiano de corpos
lançados à vala comum
dia após dia?

A cada amanhecer nos guarda
a devastadora tarefa de contar os corpos
lançados pela tsunami da noite anterior,

mas há ainda os negacionistas
das mais diversas seitas,
os que creem no vírus
como infortúnio comunista.

Alardeiam estarem vazios
os milhares de caixões
mandados às covas
a cada alvorecer,
como se encenássemos 
uma mórbida
ficção.

Não bastasse a crua morte
soprando aos ouvidos,
sofremos cá ainda
a morbidez espantosa
dos fascismos cotidianos.




.......

 "É preciso estar atento e forte,
não temos tempo de temer a morte"



40 dias se passaram desde quando escrevi aqui pela primeira vez e os mortos saltaram de 39 mil para 265 mil no mundo.  No Brasil saímos de 200 em 01 de abril para 11.123 perdas hoje.

Estabeleci uma rotina a qual me apeguei para não sucumbir. Saio de casa uma vez por semana apenas. Hoje foi dia. Acordamos, tomamos café e fomos caminhar no alto do bairro Mangabeiras, aos pés da Serra do Curral. Olhar para aquele verde, respirar aquele ar, ouvir aquele silêncio e retornar para suportar mais uma semana. De lá seguimos para o supermercado e retornamos para casa. Há quatro semanas repetimos este pequeno ritual. De segunda a sexta trabalho oito horas por dia para cumprir as rotinas do Pnud. Tenho conseguido fazer atividades aeróbicas em casa pelo menos quatro vezes por semana, de manhã. À noite pratico yoga e meditação e esta semana conclui a leitura do Mulheres que correm com lobos, da Clarissa Pinkola Estés, que se tornou uma companhia calorosa neste primeiro mês de quarentena.

Não sofri nenhuma perda de ente ou amigo. Queria acreditar que isso não irá acontecer, mas há uma luta cotidiana contra os maus pensamentos, que se materializam como pesadelos quando cerro os olhos e a consciência. O inconsciente me põe diante de sangue e multidões. Também minha mãe de vez em quando aparece nos sonhos. A realidade é devastadora. A saudade do meu pai aumenta, bem como o temor de que este vírus o alcance e eu não possa encontrá-lo de novo neste plano. Que esta peste o não alcance, pois seria fatal, com todos os cuidados que já precisa ter com a sua frágil vida. Tento afastar a dor, tento manter a mente livre do pânico, tento desviar-me, mas medo é matéria orgânica desta realidade. Painho se esconde na casa de uma tia, na zona rural de Vitória da Conquista, no sertão baiano, e como eu gostaria de entrar em um avião e ir lá passar São João ao seu lado na roça. Queria acender uma fogueira ao seu lado, esquentar o corpo no fogo e espantar o inverno severo que se abateu sobre nós.


segunda-feira, 27 de abril de 2020

Loba

27 de abril de 2020
às 5:59


sonhei
com duas mulheres.

uma delas bem vestida,
penteada e alinhada,
tentava se aproximar
e beijar a boca da outra: nua,
assustada e descabelada.

acordei com uma aurora sensação
de que as duas eram a mesma
e a mesma, eu.

uma, bem resolvida e senhora de si,
tenta acalmar e convencer a outra
sobre o anverso da loucura,
sobre o que anda escondido
sob um véu frígido de sensatez.

a verdade que inda me falta
nítida me escapa
pela madrugada.


domingo, 26 de abril de 2020

banho de sol


estendo o braço
para tocar um raio
de onde estou,
de onde é possível
respirar uma porção
de nuvem e de-sensatez.

deito a dor
no pequeno quadrado morno da cela
onde o sol me avista
e visita
por duas voltas de horas
e deixo brotar de dentro dela, quieta
e se arder em luz de saudade vigorosa,
a memória.

a quietude não é uma virtude,
é uma necessidade
como a arte,
o dispositivo que inda permite
ao corpo escrever, amar
e respirar.

há dias que inda vejo beleza
neste silêncio, nesta solitude,
e depois me culpo
de dentro deste vazio,
de dentro desta minha
sinistra e vergonhosa
(im)potência.

nos protege do vírus o isolamento
mas somente nos pode curar da necropolítica
a coletividade.

saudade,
de quando era possível sonhar.


quarta-feira, 8 de abril de 2020

as horas é que formam o longe.

quando a noite nasceu chovendo 
não trouxe junto essa tristeza como chumbo
a sufocar a aurora com sua iníqua
falta de sentido.


esse peso morto é seu 
e não do tempo.

Aquietar.


Sábado, 04 de abril de 2020, 13:23 da tarde.

Em 03 dias o Brasil dobrou o número de infectados, chegando a mais de 10 mil. Mas há os que digam já passarmos dos 30 mil, considerando a subnotificação.

Há cinco dias não saio de casa. Aos poucos o corpo se acomoda com o confinamento e o sentimento se inverte. Se na primeira semana buscava desculpas para sair, agora adio a necessidade de fazê-lo. A rua se tornou um campo minado e todo o ritual de cuidados para atravessar a linha divisória pode ser em vão. Nenhum movimento além da porta é seguro. É preciso serenidade para permanecer aqui. É preciso parar.

Foi uma semana de superação. Venci os primeiros 14 dias desde a vinda de Brasília. 14 dias. Tempo da manifestação do vírus. Me convenci que a falta de ar não era o vírus. Comecei a tomar antialérgico e adquiri novos hábitos contra a ansiedade. Atividades aeróbicas, florais, chá de camomila. Arrastei o sofá para baixo da janela da sala, por onde o sol invade o apartamento. Esta nova configuração permite a mim e Charles um banho de sol com Buk e Leminsk depois do café da manhã enquanto ouvimos músicas e folheamos algo.

Acabo de escrever este parágrafo e paro para cozinhar e ver um pouco de televisão. No jornal se noticia a distribuição de cestas básicas em Salvador e uma multidão se aglomera para tentar salvar alguma. Me situo entre a classe média branca privilegiada, a quem foi concedido o direito de trabalhar em casa e se resguardar do contagio, enquanto uma grande parcela da população, povo preto deste país, em um contexto de ainda mais miséria e escassez, luta para por o básico em sua mesa.

A rotina de home office é cansativa, mas nunca o trabalho fez tanto sentido. Sensação de naufrágio. Enquanto alguns tentam colaborar e esvaziam o barco com seus pequenos frascos, outros, com poder de estado para distribuir coletes salva-vidas à população, vestem apenas os seus e pensam poder fugir em suas lanchas privativas. Trilhões já foram direcionados aos bancos, enquanto a renda básica aos trabalhadores informais e desempregados ainda depende de regularização. Lutamos para libertar pessoas das masmorras brasileiras enquanto Moro entoa a voz dos que se posicionam contrários a esta concessão. Esta semana foram divulgados os primeiros casos de contágio nas prisões brasileiras e a morte de um agente carcerário. Chegam denúncias de dezenas de presos com os sintomas, sendo amontoados em celas sem as notificações e cuidados médicos necessários.

Esta semana o governo brasileiro dispôs sobre a autorização para o sepultamento e cremação de pessoas sem a necessidade de um atestado de óbito durante a pandemia. 

Estarrecedor!

Sabemos sobre qual parcela da população esta prática se desdobrará! Recomendação da PFDC encaminhada ontem ao CNJ destaca a necessidade de prevenção ao surgimento de um contingente de casos de pessoas desaparecidas na sequência da emergência sanitária ocasionada pela covid-19. Segundo o documento, é preciso ”resguardar os direitos dos familiares, dependentes e herdeiros da pessoa falecida com a emissão da certidão de óbito a partir de registro civil com informações corretas sobre a sua identificação”, que familiares da vítima possam ter a certeza do óbito, suas causas e circunstâncias, “bem como registro do destino dos restos mortais, de modo a se respeitar, acima de tudo, a possibilidade de exercício do luto”.

O Brasil possui um histórico de graves e contínuas violações de direitos humanos, um país ainda marcado pela negação do direito à memória, verdade e reparação quanto aos crimes recentes praticados contra a humanidade pela ditadura militar. Assim, é preciso cuidado quanto aos procedimentos institucionais para sepultamento e cremação de corpos. Em poucos dias esta bomba irá estourar. O colonialismo pós-moderno se atualiza. É a necropolítica de braços dados com a pandemia ou a pandemia como justificativa para a necropolítica. 

Muitos compartilham a crença de que seremos melhores depois desta tempestade. Me situo ainda do outro lado. Intuo uma jornada longa, de muitas perdas e dor, uma sociedade de mais controle e exclusão, o vírus como justificativa para o acirramento das desigualdade e totalitarismos. 

É preciso repactuar nossa forma de estar no planeta.

Minhas noites tem sido inconstantes. Passei a dormir melhor, mas as lembranças do inconsciente revelam tensões. Sonhei com minha mãe. Em uma primeira aparição ela me veio apenas pela voz, muito grave.  “Reze uma novena, Fabiana”. Já acordada, não segui a sua orientação. Rompi com sua religião na adolescência e ela inda hoje insiste. Tantas vezes me pregou o apocalipse e a miséria de uma vida sem deus... Tenho guardado o seu terço, mãe. Peguei ele nesses dias como um talismã para estar ao lado da cama, mas minha oração seguirá sendo o silêncio, a meditação. Em um segundo sonho ela me fazia companhia numa casa muito precária e parecia também angustiada.  “Permanecerei com você”, disse.

Recordo-me ainda deste. Eu e Charles morávamos em um arranha-céu e de repente um raio acertou o prédio vizinho, inundando-o de fogo. O calor se alastrava pelo ar e chegava até nós. Charles me tomou pelas mãos e começamos a correr, enquanto eu pensava o que levar, o que salvar.

Última noite. Eu estava no alto de um penhasco amarrada com uma corda nos pés e me lancei enquanto ouvia minha própria voz
deixa o dia
se lança na noite



Início da quarentena.


 Quarta-feira, 01 de abril de 2020, 02:43 da madrugada.

A pandemia se alastra
feito um trem-bala desgovernado
a cruzar todos os continentes
e trepidar todos os vagões.

857.487 pessoas infectadas pelo coronavírus hoje, com 39 mil mortes em todo o mundo. A China estabilizou em cerca de 81 mil contaminados e os EUA assumiram o topo da pirâmide com 190 mil, ultrapassando a Itália, que continua em curva ascendente, somando 1,6 mil vítimas fatais nas últimas 24 horas.  No Brasil são 5.717 infectadas e 201 óbitos. Em Minas Gerais, província onde nasci, 275 contraíram o vírus e 02 vieram a falecer até o momento. Vivemos uma roleta russa. Há projeções especulando 2 milhões de mortos, 500 mil somente no Brasil. 

Acordei com falta de ar. Não há como saber se estou infectada, não há testes disponíveis no Brasil para pessoas com sintomas leves. Poderia procurar o centro de atendimento da minha cidade, mas tenho receio de vir a ser contaminada lá, caso ainda não esteja. Também me assusta a possibilidade de ser internada e morrer intubada em uma sala fria entre desconhecidos, como vi acontecer com a minha mãe há 5 anos atrás, depois de um avc. Prefiro morrer em casa, solitária, debaixo do meu cobertor. Mas esta sutil falta de ar, não sei de onde vem... se já é o vírus, a somatização por senti-lo pairando por perto ou mera alergia pela convivência intensa nesses dias com Leminsk e Bukovski, meus gatos.

Retornei de Brasília há oito dias, de avião. Posso ter sido infectada nos aeroportos. Antes, posso ter sido infectada nas ruas, supermercados, padarias ou restaurantes da capital federal. Ou ainda, posso ter sido infectada no meu local de trabalho, no Conselho Nacional de Justiça, em Brasília. Na última quarta feira o ministro Dias Toffoli, presidente do Conselho, se pôs em quarentena. Um dia antes disso, na terça-feira, a equipe de trabalho que integro teve tratativas com ele, quando obtivemos uma importante vitória, a aprovação da Recomendação 62, sobre a situação dos presidiários no contexto da covid-19 - nome técnico dado ao vírus. Contribuí na elaboração do texto, que foi escrito a muitas mãos, com orientação para a libertação de parte significativa das pessoas em situação de encarceramento, visando a redução da catástrofe que certamente irá se abater nas prisões quando o vírus ali se alastrar.  Bastou a quarentena do ministro ter sido anunciada na quarta-feira, para que se decretase o home office de todo o Conselho. No mesmo instante comprei uma passagem para Belo Horizonte. Se tivesse aguardado mais um dia não teria conseguido embarcar, pois o Distrito Federal fechou suas fronteiras na última sexta-feira.

Em Belo Horizonte Charles me aguardava com os gatos, jantar e vinho na mesa. O calor de casa e do meu companheiro me fizeram dormir como há duas semanas já não conseguia. A insônia havia tomado o meu corpo como sintoma frente a trágica realidade que se aproxima.

Desde a minha chegada a Belo Horizonte eu e Charles estamos reclusos em nosso apartamento, com os gatos. Saímos a cada 02 dias por alguns  minutos pela manhã, para uma breve caminhada e banho de sol nas redondezas, quando aproveitamos para irmos a supermercado ou farmácia. O ideal seria permanecermos em casa. Fizemos uma compra de supermercado robusta, com itens não perecíveis que nos permite sobreviver por uns dois meses, mas a possibilidade de ausência de frutas e legumes frescos me deixa atordoada.

banana maracujá
manga ovos
cenoura abóbora
coentro

Alguns amigos já não saem de casa há 10 dias. Eu ainda não consegui. A ausência de sol me causa uma angústia profunda e a falta de caminhada detona dores nos joelhos e lombar. Cada saída à rua nos impõe um ritual que imprimimos há uma semana em nossas vidas. Visto calça e blusa que cubram todo o corpo. Uso um lenço ao redor do pescoço que servirá para proteger meus cabelos e rosto. Levamos um vidro de álcool gel para higienizar as mão ao tocar em qualquer objeto. Mantemos distância de todas as pessoas pelas ruas. Rapidamente se instaurou nos nossos corpos uma tensão ou atenção para manutenção de distância mínima de outros seres, como polos iguais de um ímã a se repelirem. Ao retornar para casa entramos pela porta dos fundos, nos despimos e jogamos as roupas na máquina de lavar, colocamos os  solados dos sapatos numa vasilha com água sanitária e corremos para um banho dos cabelos aos pés, incluindo a lavagem dos óculos. Desinfetamos a casa duas vezes por semana e lavamos as mãos umas trinta vezes por dia. Todos os produtos que entram em casa são desinfetados com água e sabão. Em uma semana tenho sido mais asseada do que em todos os meus 40 anos de vida.

Em Belo Horizonte somente os serviços essenciais continuam abertos mas ainda não se estabeleceu um toque de recolher absoluto. O fluxo de pessoas nas ruas diminuiu consideravelmente, porém há ainda os que, na onda da estupidez do Bolsonaro, insistem em negar e minimizar o tamanho do problema e a necessidade de recolhimento.

Ontem tivemos aprovado pelo Senado a renda mínima para os trabalhadores informais, para que possam se por em quarentena, porém desde então aguardamos o sancionamento pelo presidente. No último sábado eu e algumas amigas fizemos um encontro virtual regado a vinho, nos embebedamos e trocamos sentimentos e presságios sobre este pesadelo que já impõe dramas de saúde e econômicos em nossas vidas e famílias.

Enquanto escrevo, alguém toca piano no apartamento vizinho, outro insone na madrugada. Já são 04:13h. Através da escrita distensiono um pouco os sentidos e minha falta de ar cessa. Mas se volto a pensar na respiração de novo me falta oxigênio. É preciso respirar sem pensar. É preciso meditar. Tenho feito yoga todos os dias. Talvez a falta de ar cesse. Talvez eu não esteja infectada.