terça-feira, 7 de julho de 2015

"Não tem resumo 

Cada mulher e cada homem
No fundo sabe o que quer
E sabe de si para além do seu nome
Cada um é o que é


A vida está sempre por um triz
E o movimento das marés
Tem na lua sua força motriz
Faz do contra seu revés

Por isso cuida do que diz

A palavra é unha de fome
Ela é como a meretriz
Quando dá é que ela come 


Faça o que sempre quis
Porque arrependimento é fumo 


Essa é a diretriz, segue seu rumo
Pra ser feliz não tem resumo"

K



...............................................
 Não tem remédio

Se em cada canto de encontro

tecia um buraco sem fundo,
pensava um elo além deste poço,
mas não. Cada qual no seu mundo.  

A noite é sempre essa imensidão
e o tempo exíguo do revés
não atenua essa vastidão.
Marés.  

Nem por isso o que se pretende dito dita
silêncio. Ser tao é maior que a fome -
Terra em Transe, Raso de Catarina.
Pretexto sem fim era seu nome.  

Se é distância que pede, toma
- sua palavra final, seu guia.  

Nesta soma: nadou de sobra afasia
e se ausentou (desde quando?) Magia.
Lile

sábado, 25 de abril de 2015

dasein



e tem outras percepções e reflexões 
que passam por um outro lugar
e dizem do meu eu, ali,
a te flertar.

é difícil, a mim, 
compreender. 

me vi de fora,
também:
- um ser no tempo
implicado em amar.

e me estranhei.



segunda-feira, 20 de abril de 2015


UTOPIA

Por quase nada
Se antes um pouco eu tivesse viajado a Bogotá
E caminhado pelas suas praças,
Pelos seus vales
E me juntado ali à sua luta de classes,
Talvez tivesse te conhecido entre olhares e frases
Soletradas ao mesmo tempo,
Lábio com lábio, por liberdade.

Por quase nada
E naquele mesmo dia teria escrito um poema
Em outra língua, irmã latina.

Se tivesse te abraçado, poderia ter me feito pássaro
E querido voar mais alto
E mais alto
E mais alto.

Saltado sem medo em águas profundas,
Em terras nunca visitadas,
Bibliotecas de poesias,
Percursos ilhados de rimas,
Suscetível a outros mares
e entregue a novas geografias.

Talvez
- e isso é só uma elegia!,
poderias ter se materializado em pele
cheiro textura e tato,
poderia ter por quase quase
quase nada
te abraçado
e depois quem sabe?

Ser ou não ser
tudo igual
depois de tudo tudo
transformado.

domingo, 15 de dezembro de 2013



Eram por volta das 7:30 e todos segunda-feira.
nós dois. fim de sexta. acomodados pela nossa nudez, talvez sábado.
enquanto todos-trânsito, comem-no-sinal-saem-atrasados,
rua sem lua, a gente ali, parados, mudos, sem fim, nem mundo.
enquanto o dia começa, 9:30 já vai, 10:20, não convém
e tudo o mais, poluído-embriagado.

na próxima meia-hora as cores terão outros nomes
e o tato será nossa língua-universal que meia-noite
nosso novo dia sem nome.

aproveitei e tomei um café. O dia ia sem rede
nem pé. O pó das horas frescas corroia os ponteiros
em diagramas insolúveis. O orgasmo e a falta de
sentido na conexão com uni-versos.

as tonteiras de nossos passos
o aflor no desencanto
hão de todos meio-dia
e nós dois: 6:30 e tanto.
 no afã que descompasso
 no fervor que agonizo
 tudo volta, perdido-atraso
no recomeço, infinito, de um ambíguo solilóquio-paraíso.

(por Thiago Pedro)

sexta-feira, 2 de agosto de 2013




Esa noche
que encendida mi alma

Esa noche
en que creamos nuevos mundos

tus manos
tu cuerpo
unidos al mio

sienteme?
      desnuda
      a la luz de la luna

      Tus besos
      de lluvia

Mi sabor ira en ti
Tu sabor ira en mi

tu a mi lado
yo a tu lado
los dos en calma




domingo, 6 de janeiro de 2013

“Na modorra das tardes vadias da fazenda
era num sitio lá no bosque
que eu escapava aos olhos apreensivos da família,
amainava a febre dos meus pés na terra úmida,
cobria meu corpo de folhas e deitado à sombra.

Eu dormia na postura quieta de uma planta enferma
vergada ao peso de um botão vermelho.
Não eram duendes aqueles troncos todos ao meu redor
velando em silêncio e cheios de paciência
meu sono adolescente?
Que urnas tão antigas eram essas
liberando as vozes protetoras
que me chamavam da varanda?
De que adiantavam aqueles gritos
se mensageiros mais velozes, mais ativos,
montavam melhor o vento
corrompendo os fios da atmosfera?
Meu sono quando maduro
seria colhido qual volúpia religiosa.
Me lembrei do que a gente sempre ouvia no sermão do pai,
que os olhos são a candeia do corpo
e se eles eram bons é porque o corpo tinha luz
e se os olhos não eram limpos
é que eles revelavam um corpo tenebroso.”

(poética de abertura em LavourArcaica. acabo de rever e esse texto ficou retumbando feito sino dentro. reminiscência de um lugar sagrado que eu reconheço, de mimetismo com a natureza. mesmo depois do Sermão do Pai. mesmo sendo serpente.)

domingo, 11 de novembro de 2012

domingo, 28 de outubro de 2012

DUELLUM


Conversa sombria a dois espelha
traços reais de uma amizade doentia,
obsessão cega, cárcere imaginário
onde corpos gélidos de frustração
foram atirados

ao diabo.


Condenados a subir de joelhos o abismo,

os réus menosprezam a dor, mais a desejam
em busca vã de nada - consciência cega,
caminho escuro onde habita além
do ego

um naufrágio.


Taciturnas e apáticas foram as fantasias

cultivadas em ravina repleta de onças,
sem vestígio de saída
nem sombra de atalho

uma cura.


Em pedra à noite abandonam

fatigados da batalha aventurosa,
ferida que de há tanto esquecida
fez casca grossa no couro,

arma dura.



 

sábado, 6 de outubro de 2012

ode a página branca


melodia de mundo
é se derreter na sua boca
- canção certeira de encontro

sempre que me perco de rumo
me encontro mais
em ti

e já não sei como pude ser
antes de te ler


na minha ânsia de voar
me amarro pelos teus poemas
às minhas própias asas


domingo, 16 de setembro de 2012

SONIA LEITE RECITA ELOMAR



Feliz descoberta desta manhã, minha querida tia Sônia declama Elomar.




domingo, 8 de abril de 2012

auto retrato





sou nostálgica, filha da seca. eu mesma corto meus cabelos e uso chapéu. ouço a mesma música 50x. gosto de andar em barro e me amarro em roça sem luz elétrica. ficar acampada. ficar só em casa. e boiar à noite no mar olhando estrelas. não consigo dormir nua. nem sozinha nem com ninguém. mas amo nadar pelada. me banhei no São Francisco. já fui cristã e depois marxista. só ando com um cachecol à deriva - tenho medo de frio na nuca. paro na rua do nada pra contemplar um fusca. a enxaqueca me deixa prostrada já da insônia sei tirar proveito. já traí namorados. corro do sol pois ele mancha minha tez. se tivesse que eleger um livro, grande sertão de guimarães. meu grau é pequeno mas meus óculos estão colados nos olhos - gosto de ver o mundo com bordas. consigo ser amiga de ex. ainda escrevo cartas e posto no correio. o mar o mar... não sou de comer feijão. quis nunca mais voltar do Pará. nunca me lembro dos sonhos mas outro dia guerreava índia. gosto da literatura russa. tenho mania de chegar no horário marcado mesmo sabendo que o outro sempre atrasa. meus livros lidos são quase todos rabiscados. sou feminista. fico mal humorada e tenho pesadelos se durmo até tarde ou depois do almoço. duas cineastas, Agnes Varda e Lúcia Murat. nunca pensei em ter filhos por pura preguiça. gasto muita água no chuveiro. não sou ninguém sem café puro de manhã. gosto de bares pequenos. meu prazer maior é pedalar. ando largada. sou daquelas que bebe conhaque. Mercedes Sosa toca sempre em minha vitrola. nunca me maqueio, odeio salto alto, abomino unhas grandes mas uso esmaltes vermelhos e adoro meia calça por baixo de short curto. estou apaixonada. duas escritoras, Marguerite Duras e Hilda Hilst. nunca quis ser homem. atravessei o rio Titicaca. sexo é muito bom, admito. quis comprar uma casa em Penedo. choro todo mês em dias de tpm e sempre acho que as causas são maiores, existenciais. nunca estive no velho mundo. um filme, Stalker. leitura atual, Lou Andreas Salomé. desenho flores e bolinhas. odeio pelos no sovaco. faço exercícios enquanto vejo filmes. sou blasé. tenho pinturas de Modigliane e Van Gogh no quarto. e um gato de pano. falo pouco. ou falo muito. depende. mas costumo falar mais pouco do que muito. admiro outsiders. de uns tempos pra cá só ando com uma câmera na mão. pintei todas as portas da minha casa de preto. odeio egocêntricos. tenho uma rede na sala. gosto de comida pesada tipo sarapatel, buchada de bode e carne de carneiro. acho que é possível abolir com a miséria – há terra e comida para todos no mundo. e eliminar as opressões. mês sim mês não leio Drummond, Pessoa, Hesse e Rilke, mas adoro os marginais tipo Bukowski e John Fante. já tive três cachorras com o mesmo nome. limpo a casa uma vez por semana. invento o fim e gosto de chegar até ele. mas dei pra desistir antes, quando acho conveniente. adoro tomar banho no escuro. parei de ver televisão. ocupar é um direito. não sigo ninguém no twitter. tenho flick, blog e facebook. não acredito em fantasma mas acho que já vi alguns. ainda escrevo diário. tenho mais medo de um envelhecimento improdutivo do que da morte. as vezes pensar em vida pós tumulo me faz rir. me deixo surpreender e mudo de opinião sempre que me convence o contrário.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Doces bárbaros




"O seu amor
Ame-o e deixe-o livre para amar
Livre para amar
Livre para amar

O seu amor
Ame-o e deixe-o ir aonde quiser
Ir aonde quiser
Ir aonde quiser

O seu amor
Ame-o e deixe-o brincar
Ame-o e deixe-o correr
Ame-o e deixe-o cansar
Ame-o e deixe-o dormir em paz

O seu amor
Ame-o e deixe-o ser o que ele é
Ser o que ele é"

segunda-feira, 12 de março de 2012

Cómo hacer cine - por Alejandro Jodorowsky


PRIMERA LECCIÓN
Sentarse desde que amanece hasta que anochece frente a un árbol sintiendo la luz. Volver siete días seguidos y hacer lo mismo.

SEGUNDA LECCIÓN
Volver en la noche con una linterna e iluminar el árbol desde infinitos puntos.

TERCERA LECCIÓN
Colocarse a un kilómetro del árbol. Mirarlo fijamente y avanzar centímetro por centímetro hacia él hasta que después de algunas horas se tope la corteza con la nariz.
(Las dos primeras lecciones sirven para desarrollar el sentido de la luz. La tercera para desarrollar el sentido de la distancia.)

CUARTA LECCIÓN
Colocarse en un interior o paisaje y moverse pensando que el propio pecho fotografía, luego que la cara fotografía, luego el sexo, luego las manos.

QUINTA LECCIÓN
Ponte en un lugar y siente que eres el centro de él. Luego siente que estás siempre en la superficie alrededor del lugar. Al final rompe la idea de centro y superficie. Estás ahí, todo está en ti y fuera de ti al mismo tiempo. Eres aparte del lugar. Existe el lugar. ¡Tú has desaparecido!

SEXTA LECCIÓN
Busca el color en lo que no tiene color. Toma una página blanca y ve sus colores. Toma una página negra y ve sus colores. Ve los colores de un vidrio transparente. Descubre el arco iris en un pedazo de tierra, en un escupo, en una hoja seca. Expresa el color con materiales sin color. En verdad te pregunto, ¿sabes cuántos colores tiene la piel de tu cara?

SÉPTIMA LECCIÓN
Siente las yemas de tus dedos como si fueran la punta de tu lengua. Apoya las yemas en los objetos del mundo pensando que son frágiles, que la menor presión los puede quebrar. Pídeles permiso antes de tocarlos. Antes de apoyar los dedos en su superficie, siente cómo penetras en su atmósfera. Aprende a sentir y a acariciar con respeto. Cualquier acción que hagas en el mundo con tus manos o tu cuerpo puede ser una caricia.

OCTAVA LECCIÓN

Piensa que los actores viven dentro de un cuerpo como centro de una caverna. Pídeles que no griten con su boca, sino dentro de su boca. Que no expresen con la cara, sino que sientan debajo de la cara. cuando me desespero, desde adentro, doy puñetazos dentro de mi pecho que está inmóvil frente a la cámara. No me expreso con movimientos, sino con vibraciones. Vivo debajo de la superficie. La superficie del río no se mueve, pero tú sabes que lleva corrientes profundas.

NOVENA LECCIÓN
No importan los movimientos de la cámara. Ella debe moverse sólo cuando no se puede quedar quieta. Tú llevas el alimento en la mano. La cámara es un perro. Hazla que con hambre siga al alimento. El hambre hace que el animal se borre. No hay perro, hay hambre, no hay cámara. Hay acontecimientos. Nunca te puedes comer la manzana entera en el mismo instante. Tienes que dar mordiscos. Mientras comes tienes una parte. Debes saber que el trozo que mascas no es la manzana entera. Nunca puedes tener la manzana entera en la boca porque por muy grande que sea tu boca, no puede caber en ella el fruto que es parte del árbol ni el árbol que es parte de la tierra. La pantalla es tu boca. Allí entran pedazos. Partes del accidente. No intentes trabajar con tomas absolutas. No creas que existe la toma mejor. A la manzana la puedes morder en cualquier sitio. Si la manzana es dulce, no importa por dónde empieces a comerla. Preocúpate de la manzana, no de tu boca. ¡Cineasta! Antología de fragmentos, tú también un fragmento; tu película inconclusa, eres parte, eres continuación. No hay cierres. Mata la palabra fin. Empezarás una película el día en que te des cuenta que simplemente continúas. No busques el prestigio. Desdeña los efectos. No adornes. No pienses lo que la imagen va a producir. No la busques. Recibe las imágenes. La caza está prohibida. La pesca permitida.

DÉCIMA LECCIÓN
Nunca trabajes en el papel tus movimientos de cámara. Llega a los sitios pensando que no vas a mover la cámara, que no vas a iluminar, que no vas a inventar. Llega vacío, sin la menor intención. Echa a andar el motor de la cámara y vive. No crees escenas, crea accidentes. Esos accidentes no los crees en dirección a la cámara. Tú no estás haciendo una película, estás metido en un accidente. Parte del accidente son tus movimientos de la cámara.

DÉCIMO PRIMERA LECCIÓN
Y de pronto el gran placer. Una toma pensada con la cámara opinando con luz artificial, con "Actuaciones" (¡un verdadero postre!).
En verdad te digo, por este camino puedes llegar a hacer películas de Hollywood de los años 40. si quieres ser un gran cineasta de vanguardia, vuelve a filmar "Lo que el viento se llevó", exactamente igual, con actores de cuerpos gemelos a los de Clarck Gable y Vivien Leigh. Si logras que tu películas no pueda distinguirse de la original, has pasado a la historia

quinta-feira, 1 de março de 2012

Canto Cativo ou O Épico das Distâncias - Renato Torres



I

Penso agora então: que quer dizer cativar?
Seria ter na mão o ouro baço,
a forja serena, a cantilena mágica
de deidades secretas?

Ou que seja a aventura cega dos poetas,
a urdidura ancestral profetizada na clausura?
Há sempre um novo engodo que medra na origem,
A vertigem da fundura suposta, o erário consumido a doces golpes conquistados.

Tornar-se cativo seria então uma revelação
De sims e nãos que concordam mudamente
Delicadamente cortejam-se, alheios a necessidades pragmáticas,
Apenas reviram-se na areia lúdica, como cães finalmente felizes.
O que somos, afinal? Conhecemo-nos o bastante
Para ousar querer saber o outro?
Saberíamo-nos o bastante sem a mediação do outro?

II

Agora sou a tarde equatorial,
intumescida de nuvens brancas e cinzentas,
Sou a úmida verdade nas árvores suburbanas,
a voz inventada naquele bolero abandonado de cais
O porto e suas direções feitas a ventos e água
E tu, minha pequena rosa branca,
assinas teu nome com a seiva alva do inverno
em pleno peito da primavera.

Tu, que até pouco tempo eras uma quimera desconhecida,
Um belo sonho cujo enredo se esquece ao primeiro bocejo da rotina,
Agora te tornas outra chuva sobre a florada estação das carícias,
Inquietas o corpo e o pensamento, apenas por existires, longínqua,
guardada na redoma daquele planetinha...

Minha vinha avassaladora, minha amora abocanhada pelo dia,
Minha marinha e meu cordel teso,
Meu peso e minha fome sem medida,
Minha comida e meu pasto febril,
Minha tarde branca, meu leite,
Meu deleite e minha letra branda,
És tu quem comanda o levante
De antes de fevereiro, aos estertores de abril.
És tu quem acorda o dia nas fotografias,
e nos lábios entreabertos expirando o voo,
E recortas, com teu perfil de Helena,
As alfazemas impolutas em meus olhos índios.

III

Te abençôo e evolvo ainda mais na direção desejada,
Coroando-te os ombros, os tapumes macios que envergas, os delitos eleitos,
Erguidos acima das vergonhas pudicícias,
Com minhas mãos em concha, deitando-te as pérolas do toque,
E revejo a malícia adolescente nas travessuras onde tresandamos os gemidos,
Onde volitamos serpenteando nos ouros de Klimt, nas mucosas de Schiele, nas rosas rasteiras de Monet, nos interstícios quase invisíveis de Seurat.

E tudo o que mais será já nos pertence,
Como pedras e galhos abandonados pertencem ao caminho,
Como o ninho donde se vai o pássaro ora silente, guardando seus saltos primeiros,
Como o vago forasteiro adivinha onde estão os que o alimentarão na cidade inédita,
E a coragem análoga é a de um beduíno curtido a sois infindos,
Cuja aventura seja a de obedecer o instinto dromedário,
E em si armazenar a água essencial da esperança,
Sabendo poder cruzar desertos sem sucumbir a loucura de miragens equívocas.

Tu, que provocas a paisagem com intentos quase secretos,
Que dispõe dos objetos como fossem fetos de idéias outras,
Como fossem sempre simbólicos
De uma possível infância preservada
Nas caixinhas de eternidade - as tuas meiguices douradas no privilégio de auroras.

IV

Agora eu te reconheço bem, dama dantes oculta,
Tua quixotesca sanha não me parecia estranha,
Tua tamanha sede justíssima e grave, o teu algarve íntimo,
A abadia voluntariamente anônima de tua escritura, ora evidente
Os teus dentes alarmantes, perfilados na concha úmida e rosácea da boca pequena,
As tuas melenas entrecortadas, menina,
Reinventadas por ti!...

Teu arado autônomo, o fenômeno irrepetível de teu croquis cinemático,
Assaz romântico o teu abandono
De tudo o que te prendia ao conforto
Da vida abastada e aristocrática.

Reconheço tua democrática visão do mundo
Através do olfato: a bússola pronunciada que trazes à face de tua obra,
Três palavras apenas, a pequena herança confeccionada
Para dirimir culpas prisioneiras,
Tuas estribeiras perdidas ao chá das cinco,
O afinco com que somas digressões pelo vasto continente
A registrar-lhe, aos goles da lágrima e da lâmina leniente da câmera cinética,
Sua estética vaga, quase um sortilégio presenteado,
E suas personagens desenhadas pela dramaturgia inclemente da própria vida.

V

Reconheço-te Perséfone e Pandora, paridas de teu próprio ventre,
És a mãe de ti mesma, e és tuas filhas, elencadas ao fragor
Do instante em que necessitas delas.
Podes ter a carranca aguerrida da amazona sanguinária,
E em seguida despir-te, lânguida, como Psique apaixonada,
Deitando aos pés de Eros as oferendas lúbricas e leves
De tua intimidade rara.

Tua vida, a arma que disparas, bravia
O estopim aceso, que ameaça a explosão
Também o rio que acelera na correnteza, irreprimível
E o vento, este que bate minhas portas e janelas,
E me arranca páginas das mãos.

As tuas duas gemas da visão, as jóias
Que emergiram escuras da clarabóia luminosa
daquelas primeiras imagens,
Esses teus olhos moços e sinceros
Entregam-se ao esmero de serem janelas veladas
Por cortinas diáfanas, entre o âmbar e o nácar,
E ousam pisar terrenos proibidos sem temer ferir-se
Com o mesmo ferro da neblina com que fui ferido.

Pois quero mesmo que esses olhos teus risquem-me o peito,
Feito facas em brasa, e que a asa
Do dilema finalmente se abra,
Dispersando em seu voo o negrume
Pelo lume da tarde em que estou.

VI

Observo, atento às tuas escolhas,
Pra onde sopram as folhas deste outono,
E embora o sono me vença de vez em quando,
Sei que ando vigiando pra além do próprio abandono,
Além de Cronos e Hélios, o esforço
insano em manter-me acordado dentre as divagações oníricas.

Meu lirismo tem-se portado como um bicho selvagem,
De súbito à solta na paisagem urbana,
Desordena os transeuntes, arreganhado nas praças e coletivos
Com a lassidão típica dos amantes fortuitos, o uivo dos bugres cativos,
Meu lirismo ecoa na garoa insistente da baía,
E se esvai na valsa intermitente desses dias, na contagem regressiva
Do encontro aguardado por nós,
E guardado nas letras de Cícero, nas bravatas de Whitman, na paixão de Hilst.

O emblema mudo que traremos nos corpos, depois,
Quando fragatas cruzarem os mares de nós dois, e souberem
Que há pétalas caindo ao léu, no tombadilho deserto,
E que os homens enlouqueceram, e querem fugir
lançando-se aos krakens e serpentes marinhas,
Fulminados pelo sentimento pueril da entrega sem reservas,
Isso antes mesmo de emergirem sereias com seus assassínios vocais,
Eles já precipitados na direção de Atlântida, as guelras pululando das carótidas,

E a sorte será um cais donde volvam talvez a salvo,
Quem sabe a nado, ou a boiarem, roídos de algas e medusas,
As mentes confusas entre o que foi, e o que nao é
Contudo, finalmente pacificados pela coragem maruja.

VII

Esta seja a garatuja da hipótese inscrita
Naquilo que grita evidente em tais sinais que reconhecemos desde o início,
Do fio de sangue no pulso, ao ano de nascimento das caixas de palavra,
Tudo o que já confirmava causava o susto do estranhamento,
Em ganhar de graça o alento do que parece ser raro,
"pois pode um caminho se abrir assim tão claro?".

Redobro a atenção, e preparo um navio lento,
um atavio irresistível, retomo o fio da meada,
Renovo a moeda de troca com a vida, restauro o tesouro verdadeiro
Estar inteiro e pronto ao que se apresenta imprescindível,
Fazendo do possível um intuito e um espanto.

Meu canto a ti se esparge largo, ao infinito,
Resfolegando, lúcido e vivo, pelas balaustradas e platibandas,
Avança pelas varandas interioranas da infância cristalizada,
E move-se a galope na seara sertaneja.

VIII

Tudo quanto veja doravante
Com os olhos recém despertos de um torpor de eras
Converge agora para uma estrela supernova,
A prova cósmica de que preexistíamos ao choque dos meteoritos,
E que mesmo os ritos imemoriais de nossos ancestrais nativos
Já contavam os mitos incréus desses céus impensáveis,
Donde surgíamos a cavalgar corcéis de fogo, as mãos crispadas de raios,
E os vassalos nossos eram semideuses de culturas diversas,
Cada um com sua oferenda específica,
E a fúria do que sentíamos só se satisfazia no sacrifício brando
De ramalhetes sangrados à beira do mar,
De festas e danças que varavam semanas insones, aos goles da alegria,
De crianças gretadas de cataventos e risadas que surgiam,
Brotadas de ventres de madrugadas,
E ainda de novas histórias inventadas pelas mentes entorpecidas
Dos viajantes e dos camponeses, do povo entregue a algaravia histriônica do Carnaval -
A carne do temporal, o sangue da maresia, os ossos da utopia,
a brecha do fatal.

IX

Trafego agora, trôpego, entre nuvens de cá e lá,
Calado, sem querer perturbar os anjos que dormem a sesta,
Nesta tarde de sábado, ouço rumores de serestas e saraus vindouros -
Ou seriam os anteriores, quarados na lembrança feito lençóis de avós?
Ouço argumentos em delírio, "é Carnaval!... é São João!..." os fogos a pipocar seus estampidos moleques,
Os bricabraques pelas praças, lançando velhos almanaques do séc XIX,
Salamaleques de saltimbancos irrompem brincalhões em meu peito ansioso.

Ouço gozos, ouço gemidos ungidos com o óleo divino do desalinho sincero,
Ouço boleros, sambas e marcha-ranchos, ouço o tropel mais ancho
De uma cavalhada no horizonte belo,
Ouço o desmantelo de cárceres e grilhões, ouço as vozes de multidões de outros seres invisíveis, e ouço ainda
A tua voz, nítida, vencendo a turba febril
Com delicadeza de fêmea e filha, de mulher e marulho, com firmeza de mergulho aprumado
Até o fundo perau dessas vaus invictas,
Convictas de seu patamar inalcançado.

Ouço a ti, via láctea, pó de estrela, ouço a ti e a mais ninguém nesse momento,
Ouço a centelha da vela solitária,
Ouço a ária composta, e nunca executada,
Ouço a fada, a sílfide, a Hécuba, o Ágape
Ouço e não duvido, porque o olvido destarte inopera,
E a fera indizível,  já cantada, orbita agora num'outra esfera,
Feita de um sonho puro, um ouro claro, um desmascaro além do muro
Que te nubla a visão do futuro.

X

Eis as fontes, viajante... De qual água beberás?
Eis os montes de cá, contrastando com tuas planícies do norte...
De que morte morrerás?
Eis a plêiade, extinta a milênios, seus fulgores a viajarem o universo até os teus olhos... Em que brilhos crerás?
Eis a estrada, e suas muitas bifurcações, esse jardim de Borges...
Em que alforje trarás a bússola?
E se enlouquece a rosa dos ventos, neste intento que te assola... Em que mola terás o impulso do salto?
E se empalidecesses de medo, e lhe paralisassem as veias, em que veios extrairias a substância dos significados?

XI

Bem compreendido, o sentido será um jorro multiplicador de sempre variada semântica,
Arrancando ao cotidiano prosaico o seu mais farto ensejo,
é assim então que desejo esse encontro marcado, essa épica jornada entre dois seres que vencem distâncias,
Essas as mais diversas e possíveis quanto se as metaforize,
Quero e acredito nessa beleza, mas não cegamente,
Antes vidente, visionário, adivinho e taumaturgo,
Pois sei haver uma curva donde não se vê adiante,
Mas na qual se crê, naturalmente, porque o caminho serpenteia,
Corcoveia íngreme, ladino feito o próprio destino,
E que nos surpreende meninos, sem temor de floresta e trilhas,
Abrindo picadas, aprendendo os nomes dos bichos e plantas,
Assobiando a fala de passarinhos,
Resguardando nos olhos tantas maravilhas.

XII

Estes somos nós, menina, prestes ao desvelo,

À beira do abandono são de um no outro,
Nós, a empunhar uma vez mais o libelo do amor
De encontro a frieza mouca do mundo,
Nós, no fundo reino guardado, na dobra do abraço,
no traço da origem,  na margem do rio vivo,
Eu e tu, fincados no restolho da paisagem,
Dados à viagem repentina de corvos nas plantações de milho,
De garças ao desmaio da tarde, alarde inconsútil, ensaio de brisas.

Sabe-se onde pisa quando o chão nos responde com firmeza,
E onde a beleza nos alerta com a seta da surpresa
Apontada para a meta prevista,
A provável ametista de uma joia semeada.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

carnis valles



carnis valles
(um marcha-rancho de dois desconhecidos
que se amam num baile)

Renato Torres &
Bia Lile


As longas horas se hospedam no corpo
e o que será no amanhecer é segredo
de corpos nus molhados de brisa
dourados de novo sol

“Tambor dentro do peito, coração manera
pára de chover, que já é primavera
a manhã já vem, e parece quimera
mera fantasia de quem só espera”

Queria estar aí mergulhada neste azul
sei que tenho sede de em seus braços teus afagos
me acolherem e poder navegar
doce, igarapé no seu mar

Criarás no cais o além-mar e o que irás
buscar na vaga inventada virá
viverás do que entardecer no escuro de crer
na fresta orvalhada de ver


Esse azul também verdeja
dependendo de como veja
do que enseja tua sede
eis o verde que me mede

Enquanto me escreves com a esquerda
imagino-te a seda das pernas
e a cerda lúbrica dos cabelos
e dos pêlos, dos desvelos
das cavernas

Na água fria de manhã
teus pés de moça
o teu sexo de pagã
minha carícia, e o viço das maçãs
toda a delícia da entrega num afã

Sedenta
a tua carne inventa sumos
e arrebenta em sonhos febris
em lenhos a crepitar
em húmus úmidos a germinar

teu umbigo se insinua
tímido, e continua a te contar
no que imagino
nua, na beira do mar
do desatino

Abriria esse teu arco-íris devagar
pra cheirar no fim
o pote de outro
pra lamber no fim
o meu tesouro

E enquanto não me abres
vou me diluindo em gotas
e enquanto não vens
meu gatinho de pano me guarda

Serei teu gatinho de pano
se quiseres, o teu abandono
teu sono cavalgado
teu prado insone
teu homem, tuas mãos

Onde estás, me perco
num beco qualquer de tua flora
e agora, num fogo de arrebol
me deixo ficar morno em teu lençol

E sua pele assim,
ainda amanhecendo

E ainda recendendo ao vinho
tinto da febre e do instinto
portanto mais te sinto viva
na saliva do labirinto
E eu te dei meus pés
pra caminhar ao seu lado
e nos teu lábios... ah...
nos teus lábios me rendo

Deixa eu beber da sua boca o vinho
e em cada canto do seu corpo
derramar minha embriaguês pagã.
sedento resta um corpo de desejo,
distante. bêbada já me sinto
à primeira luz da manhã

Vou fazer um café,
pra tomarmos na cama,
enquanto você me inventa uns versos
e mais suave me rendo
contigo. o dia será de dengos.

A tua boca me imprime ranhuras
hachuras lívidas feitas a sofreguidão
tua boca me dá outra razão
desgovernada, de contramão, e amanhece calada
no acalanto da minha mão.

Esse tudo é um sem fim do mundo,
tempo longo a desvendar
na tua boca passaria os dias,
atriz sedutora cheia de manhas
em meu corpo tua pele a me ganhar

Então veste teu melhor figurino
a tua pele nua de corça
e cavalga meu visgo menino
improvisa tua louca valsa

Seus dedos em minha boca... ah, menino...
nela tenho guardado um mel de abelha raro.
depressa me traga teus lábios, vou te envenenar
e deixe que eles se digam, hei de me deixar.

Como me sabe Ártemis?

Sou das matas, das águas, dos bichos
arredia, ensimesmada mas se te elejo
te laço te enfeito te guardo
te fervo te bebo te como,
cuidado!, pode se deixar ficar.

Te sei Ártemis, Vênus, Perséfone, Psique
nem sei bem porque, te sei antes
talvez de um livro antigo
ou do abrigo atlante ultramarino

também eu te tenho de longe
de uma selva distante

(espera que fui colher frutas pra te alimentar)

Ah, menino, és fonte, sabe?
não seca nunca!
cresce água e clama foz.

Daí me queimas, e eu desejo a fogueira
do teu sexo, da tua boca, das tuas cercanias
quero a algaravia das descobertas lúdicas
impudicas, ricas de cheiros e sabores únicos

Teces rendas com tua boca nesse copo
fico a imaginar que tramas farias em meu corpo
como irias me tomar, tua sede e fome
e como homem, na tua língua desandar

Colhi num pomar que cultivo pra quem sabe me abrir
bebe do meu copo
ou toma no meu corpo
bebe! porque sou mais feita de água

Já te conheço em movimento
já tenho a sua voz dentro
e se também me quiseres assim, amante
não te quero perder amigo
mas por hora confesso
te quero homem pra dentro.

Cá estou e já viajo a te encontrar
num balanço cadenciado de rede e de corpos nus
quero te enredar

Quartzo rosa sobre o peito
pedra boa pra curar coração doente

Um veio de seara lúbrica,
um vão de candeia,
um seio gotejando leite,
um enfeite pros cabelos da noite
um coice arranhando nuvens,
urgentes.

Deixa o encontro fortuito se transformar num templo
na minha vila te abrigarei sem tempo
sentir diferente num quarto de corpos nus
não há escuro no ocaso pra quem vem de Vênus

“Cansada de meus crimes
Vênus me condena a fazer tudo de novo
humilhante pena
enquanto o coração vai derretendo devagar”

Me leva pro rio de Combu
alimentar a fome com cantos sem reservas
imagens a vagar pelo nada
algumas perdidas em outras eras
impulsionando densidade fluida



Alecrim acalanto
seu rosto de poeta é plástico
sua densidade é de navegante
há muito já me despi para ti
(se tens olhos veja!)

A tua boca me despe
em cuspe e verso
em saliva e prosa
em boca seca e silêncio
em abrigo e túnel
em caverna e medo
em sorriso e gozo
em pranto e grito

A minha boca te veste
em língua e gozo
em lírio e lodo
em choro e riso

Em mordida e esquecimento

Em canto liquido
em prazer e memória
em cheiros e gemidos
em gestos e ruídos
a minha boca em seu vestido


A cidade chove embriagada
desarvorada e sôfrega. E eu sigo
querendo te ver

Dentre as montanhas
agora reside uma menina em cura,
apaixonada

Existiu e existe
insiste na imaginação
cava fundo a caverna do coração
relógio doido, aberto a machado
deixa o recado vívido no corpo
de esperar te ver cruzar meu caminho

Tudo tem cabimento
a cada momento cabe agradecimento
cabe o canto no vento
a cor no cata-vento
a flor no sentimento

Ah, se já me acostumo
aos versos seus como aos sinos
de uma pequena comunidade
de hora em hora a cantar o mar...

*as citações entre aspas pertencem, na ordem em que aparecem, a Fagner e Zeca Baleiro (Outra Era), e Paulo Vieira (Na Véspera).