domingo, 22 de novembro de 2020

22 de novembro

 

A poesia de ontem

Inda hoje me arrepia.

 

Poderia apagar

cada letra,

desdizer,

mas o que ali se fez

foi em mim revelado

como intuição.

 

A verdade é que a escrita

é um tipo de catarse.

 

Não sei escrever o sol, o rio, o mar.

 

Quando há sol

e a luz me toca a tez,

quando há rio

e o fluxo me leva ao mar,

quando há mar

e uma onda me salga o olhar,

nasce dentro sereno o silêncio.

 

O silêncio é o meu estado de oração.

 

A palavra é pus,

exortação.

 

A palavra quando grita a verdade,

tivesse eu uma pá,  enterrava.

 

Mas não se enterra

um raio de sol,

o sentido de um rio

não se entrerra,

não se enterra

o movimento de um mar.

 

A palavra é este estado

raio, sentido, atravessamento

e deitada em sua superfície

como em um divã

aguardo ávida o próximo

dito, movimento.



sábado, 21 de novembro de 2020

21 de novembro de 1977

 

A tristeza que sinto

tem a mesma cor leitosa

que carrego no nome

e me colore a pele.

 

É a tristeza de um eu sem povo,

de um corpo sem território.

 

A tristeza que me circunda

nasceu comigo 

e foi parida antes de mim.

 

Mesmo minha mãe, 

que tinha traços indígenas,

trazia em si esse nó na garganta

que hoje sei,

atravessou também a minha avó

e antes a minha tataravó,

laçada e arrancada da sua terra

para servir a um homem branco.

 

Sou a mais pálida de todas essas mulheres

que compõe a minha ancestralidade

e nesta linha de embranquecimento

herdei este sentimento.

 

Sou eu desde lá a mais triste?

 

E agora

este calor que me toma o corpo

a esta altura da vida

anuncia o arrebol

da semente.

 

Não haverá broto.


Neste corpo

cessará a dor

que vem de antes,

que cesse em mim.

 

Cumpro a profecia

que inda menina

jurei para minha mãe

e para mim:

 

Não terei filhos, mãe.

Essa tristeza nossa 

cessará em mim.

 

Serei a última de nós,

de toda nossa encarnação,

a libertação, a superação,

sentido primevo

e autêntico não.