A poesia de ontem
Inda hoje me arrepia.
Poderia apagar
cada letra,
desdizer,
mas o que ali se fez
foi em mim revelado
como intuição.
A verdade é que a escrita
é um tipo de catarse.
Não sei escrever o sol, o rio, o mar.
Quando há sol
e a luz me toca a tez,
quando há rio
e o fluxo me leva ao mar,
quando há mar
e uma onda me salga o olhar,
nasce dentro sereno o silêncio.
O silêncio é o meu estado de oração.
A palavra é pus,
exortação.
A palavra quando grita a verdade,
tivesse eu uma pá, enterrava.
Mas não se enterra
um raio de sol,
o sentido de um rio
não se entrerra,
não se enterra
o movimento de um mar.
A palavra é este estado
raio, sentido, atravessamento
e deitada em sua superfície
como em um divã
aguardo ávida o próximo
dito, movimento.