Em 17 de outubro farão exatos 07 meses que estou de quarentena. A última vez que escrevi foi em 17 de julho, há quase 3 meses. Neste tempo chegamos a mais de 1 milhão de mortos no mundo e 150 mil no Brasil. Alguns sinais de vacinas aparecem mas a previsão é de que por aqui só comece a ser aplicada universalmente em seis meses e isso significa mais de 01 ano em estado de hibernação.
Independente deste campo de guerra instaurado que continua a matar uma média de 500 pessoas neste país todos os dias, retomam-se não apenas as atividades profissionais, o que é compreensível devido à necessidade de subsistência de grande parcela da população, como também os encontros sociais, as aglutinações nos bares, os eventos noturnos. Este viver intensamente o hoje como se não houvesse amanhã assusta. Há aí um misto de pulsão-de-morte e foda-se-o-resto. Feito esses machos escrotos que antes de suicidar matam uma mulher. Não basta morrer, é preciso também levar alguém consigo.
A morte,
este terreno fértil
de transcendência,
é esvaziado de sentido,
despossuído de afeto.
Como se isso não bastasse, ardemos em fogo. 23 mil Km2 somente no Pantanal foram queimados nos últimos dias. Houveram queimadas na Chapada dos Veadeiros em Goiás e agora queimam também a Serra do Curral em Minas e a Chapada Diamantina na Bahia. Não se trata de uma mera fatalidade, a se somar com a pandemia. Em ambos os casos, há uma negligência proposital de um estado fascista. O calor e o clima seco tornam a quarentena ainda mais aflitiva, asfixiante, claustrofóbica.
Me mudei para uma casinha de fundo, com terreiro, buscando um pouco de ar, de luz, de árvore. A casa é uma entidade viva e nela meus gatos ganharam terra e telhado. Varrer as folhas secas do terreiro, aguar as plantas, podar, plantar, e colher da horta tornaram-se rotinas cotidianas, imprimindo uma organicidade no corpo, antes enclausurado em um apartamento.
Continuo trabalhando de casa em Belo Horizonte, até que me chamem para retornar as atividades em Brasília. O trabalho remoto coincide com o tempo de quarentena. A saudade dos amigos e familiares aperta, as tensões com os casos de parentes e amigos próximos contaminados se expandem, sem contar as crises de depressão, ansiedade, adoecimentos diversos que se manifestam.
Hoje tire uma crise de choro enquanto praticava yoga, a mais intensa de toda a pandemia. Cansaço acumulado, esgotamento, transbordamento, estado líquido. Coincide com a chegada de uma fina chuva, que cai tímida desde ontem.
No mais, usar máscara se tornou ideológico.
Se uso máscara, sou comunista.
Não sei pra que rumo
vamos.