sábado, 22 de maio de 2021

maior que o infinito é o meu quintal

 

Minha casa é um universo 

cheio de bichos, sabedorias

e delicadezas como esse casal 

de passarinhos de peito branco

que fez ninho na árvore onde 

de manhã me guardo do sol


Tem um céu inteiro 

em cima do meu quintal

e a noite todas as estrelas 

de todos os tempos e galáxias

me vem saudar uma sinfonia 

de infinita beleza e silêncio


Todas as luas cabem na minha varanda

nova crescente cheia e minguante

mas elas brincam de esconde esconde

e as vezes preciso dar a volta no terreiro 

pra saber em qual parte da escuridão

me esperam a sorrir


Além do meu pai 

que come um abacate 

debaixo do pé de pinha

tenho como companhia

um calango que passa 

o dia pelo muro a passear 

e às vezes me saúda com um 

brilho no olhar

e um breve olá


e uma civilização de formigas

que carrega toneladas de folhas

para o andar de baixo da terra

onde vivem e se escondem 

do sereno

para não gripar


Tem um cacto que agora

 se abre em flores vermelhas

tem capim cidreira

tem pé de limão

e inda outro dia 

nasceu, que alegria!,

um pé de pitanga.


É preciso saber cuidar 

desse cosmo

com quem compartilho 

o meu habitat

aguar as plantas

contar as estrelas

segredar com a lua

dourar a pele ao sol

e se atentar pra não pisar 

no calango e no formigueiro


é preciso aprender a respirar 

cada dia devagar, 

profundamente,


saber curtir o friozinho 

que se avizinha

e esperar pelo dia 

que já há de chegar

de tomar quentão

comer canjica 

e se esquentar 

na fogueira de são joão.




sábado, 8 de maio de 2021

SALTIMBANCO

 

O ato instante sem forma.

O quadro intuição sem régua.

A personagem atuação sem gesto.


O que não me serve esteve sempre guardado

e o que me cabe, 

                        intempestiva 

                        passagem.


Meu improviso não é meu, 

é retalho no tabuleiro

e vem antes,  bem antes de mim,

inscrito na garganta como eco ancestral.


A poesia mal dita não arma cavalete, atira pedras

na rima fácil e tropeça sôfrega

como sobre trilhos desencarrilhados.


Pigarreio e lanço uma praga

aos que operam os refletores,

a luz me cega e erro o passo 

no dia em que acreditava plena

em aplausos.


Ponho a mão sobre os olhos

e em meio a sombras

enxergo uma casa repleta de corpos

ávidos por meu mais simplório texto.


Silêncio. Uma campainha.

Corro para o fundo do palco.

Intervalo.


Foi me garantido um tempo?

Como a um preso um banho de sol?

Como a um cego uma vista para o mar?

Como a um famélico um prato de comida?

Como a uma deusa o dom da criação?


Inspiro longamente aliviada

e expiro exortando os diabos


Os bastidores são como uma imensa noite

em que a insônia não me veio visitar.


Os bastidores guardam corredores 

de onde se é possível avistar

pequenos feixes de luz 

no fim do túnel.


O sol que antevejo lá fora 

porta mais calor

do que os abraços aqui dentro.


Avisto um recomeço.


Afinal,

há saída desse espetáculo

em que interpreto

este ser que inda hoje

desconheço?



quinta-feira, 6 de maio de 2021

RASO DA CATARINA

 

os dias pesam toneladas

se arrastam e me chacoalham


na pele se inscrevem profundos acidentes

e a água que era muita agora falta pra uma lágrima


- ando seca, de verdade.


uma dor na lombar 

uma falta de ar

um pólipo retirado do intestino

ondas de calores e frios

dores articulares

insônia enxaqueca boca seca

e de novo

falta de ar


o coração, 

disse a cardiologista, 

anda um pouco mais fraco

do que o recomendado

- vou te pedir um raio x do tórax


o riso mais curto

os sonhos soturnos

as caminhadas mais longas

para fazer desmoronar 

as pálpebras ao me deitar


faltam abraços 

e quase já não reconheço 

em mim um sorriso 

- a alegria se escondeu 


 me enrosco no tempo

em estado de desenraizamento


é noite


lá fora a mesma neblina milenar sobre Conquista

encobre as terras onde posso sentir pulsarem

minhas ancestrais


onde estás, minha mãe,

onde estás, Paulo Tiago

que não aqui para atravessarem

comigo esta imensa tempestade,

essa, quem diria,

apocalíptica travessia?



PAI

 

Meu pai não respondia aos comandos 
ou seus atos se desenrolavam
no tempo de um bicho preguiça

e eu na velocidade dos ventos 
ávida por resposta 
passei a observar os sinais
para cultivar como broto 
pequeno 
a sua vida

os sinais vinham dos olhos, 
da gesticulação dos lábios 
de onde há mais de década 
não se ouvia voz,

os sinais vinham do intestino,
se haviam aberto ou não,
da pressão arterial
se acima de 15 ou abaixo de 9,
da glicemia,
ou do sódio que beirava 127 
e precisava alcançar 135

os sinais vinham do desejo 
de comer macaxeira,
tomar café com leite
chupar rapadura
fazer a barba 
e aparar as sombrancelhas,
escovar os dentes e conseguir
mesmo com um jato ralo
fazer xixi




sábado, 1 de maio de 2021

INSPIRAÇÃO


a palavra morre obtusa

como um pássaro

como um gato

como uma folha

como um redemoinho

quando é chegada a hora

ou mesmo antes quando não é chegada 

também


as vezes morre a palavra apenas 

porque não há nada mais

por fazer


como este céu nublado

inda meia hora antes

estrelado


ou porque ainda

descuidou a boca 

de qualquer verbo, grito ou prosa

e dormiu bêbada sufocada no sofá

porque sentido mesmo, frente às dores, qual será?


antes mesmo de se firmar

ali onde se debatia em murmúrio

se redimiu a palavra 

em disritmia e

silêncio 


a nossa sina é viver pra ver

todo este céu se apagar


eu não sou do mar

eu não sou do mar