Minha casa é um universo
cheio de bichos, sabedorias
e delicadezas como esse casal
de passarinhos de peito branco
que fez ninho na árvore onde
de manhã me guardo do sol
Tem um céu inteiro
em cima do meu quintal
e a noite todas as estrelas
de todos os tempos e galáxias
me vem saudar uma sinfonia
de infinita beleza e silêncio
Todas as luas cabem na minha varanda
nova crescente cheia e minguante
mas elas brincam de esconde esconde
e as vezes preciso dar a volta no terreiro
pra saber em qual parte da escuridão
me esperam a sorrir
Além do meu pai
que come um abacate
debaixo do pé de pinha
tenho como companhia
um calango que passa
o dia pelo muro a passear
e às vezes me saúda com um
brilho no olhar
e um breve olá
e uma civilização de formigas
que carrega toneladas de folhas
para o andar de baixo da terra
onde vivem e se escondem
do sereno
para não gripar
Tem um cacto que agora
se abre em flores vermelhas
tem capim cidreira
tem pé de limão
e inda outro dia
nasceu, que alegria!,
um pé de pitanga.
É preciso saber cuidar
desse cosmo
com quem compartilho
o meu habitat
aguar as plantas
contar as estrelas
segredar com a lua
dourar a pele ao sol
e se atentar pra não pisar
no calango e no formigueiro
é preciso aprender a respirar
cada dia devagar,
profundamente,
saber curtir o friozinho
que se avizinha
e esperar pelo dia
que já há de chegar
de tomar quentão
comer canjica
e se esquentar
na fogueira de são joão.