segunda-feira, 27 de abril de 2020

Loba

27 de abril de 2020
às 5:59


sonhei
com duas mulheres.

uma delas bem vestida,
penteada e alinhada,
tentava se aproximar
e beijar a boca da outra: nua,
assustada e descabelada.

acordei com uma aurora sensação
de que as duas eram a mesma
e a mesma, eu.

uma, bem resolvida e senhora de si,
tenta acalmar e convencer a outra
sobre o anverso da loucura,
sobre o que anda escondido
sob um véu frígido de sensatez.

a verdade que inda me falta
nítida me escapa
pela madrugada.


domingo, 26 de abril de 2020

banho de sol


estendo o braço
para tocar um raio
de onde estou,
de onde é possível
respirar uma porção
de nuvem e de-sensatez.

deito a dor
no pequeno quadrado morno da cela
onde o sol me avista
e visita
por duas voltas de horas
e deixo brotar de dentro dela, quieta
e se arder em luz de saudade vigorosa,
a memória.

a quietude não é uma virtude,
é uma necessidade
como a arte,
o dispositivo que inda permite
ao corpo escrever, amar
e respirar.

há dias que inda vejo beleza
neste silêncio, nesta solitude,
e depois me culpo
de dentro deste vazio,
de dentro desta minha
sinistra e vergonhosa
(im)potência.

nos protege do vírus o isolamento
mas somente nos pode curar da necropolítica
a coletividade.

saudade,
de quando era possível sonhar.


quarta-feira, 8 de abril de 2020

as horas é que formam o longe.

quando a noite nasceu chovendo 
não trouxe junto essa tristeza como chumbo
a sufocar a aurora com sua iníqua
falta de sentido.


esse peso morto é seu 
e não do tempo.

Aquietar.


Sábado, 04 de abril de 2020, 13:23 da tarde.

Em 03 dias o Brasil dobrou o número de infectados, chegando a mais de 10 mil. Mas há os que digam já passarmos dos 30 mil, considerando a subnotificação.

Há cinco dias não saio de casa. Aos poucos o corpo se acomoda com o confinamento e o sentimento se inverte. Se na primeira semana buscava desculpas para sair, agora adio a necessidade de fazê-lo. A rua se tornou um campo minado e todo o ritual de cuidados para atravessar a linha divisória pode ser em vão. Nenhum movimento além da porta é seguro. É preciso serenidade para permanecer aqui. É preciso parar.

Foi uma semana de superação. Venci os primeiros 14 dias desde a vinda de Brasília. 14 dias. Tempo da manifestação do vírus. Me convenci que a falta de ar não era o vírus. Comecei a tomar antialérgico e adquiri novos hábitos contra a ansiedade. Atividades aeróbicas, florais, chá de camomila. Arrastei o sofá para baixo da janela da sala, por onde o sol invade o apartamento. Esta nova configuração permite a mim e Charles um banho de sol com Buk e Leminsk depois do café da manhã enquanto ouvimos músicas e folheamos algo.

Acabo de escrever este parágrafo e paro para cozinhar e ver um pouco de televisão. No jornal se noticia a distribuição de cestas básicas em Salvador e uma multidão se aglomera para tentar salvar alguma. Me situo entre a classe média branca privilegiada, a quem foi concedido o direito de trabalhar em casa e se resguardar do contagio, enquanto uma grande parcela da população, povo preto deste país, em um contexto de ainda mais miséria e escassez, luta para por o básico em sua mesa.

A rotina de home office é cansativa, mas nunca o trabalho fez tanto sentido. Sensação de naufrágio. Enquanto alguns tentam colaborar e esvaziam o barco com seus pequenos frascos, outros, com poder de estado para distribuir coletes salva-vidas à população, vestem apenas os seus e pensam poder fugir em suas lanchas privativas. Trilhões já foram direcionados aos bancos, enquanto a renda básica aos trabalhadores informais e desempregados ainda depende de regularização. Lutamos para libertar pessoas das masmorras brasileiras enquanto Moro entoa a voz dos que se posicionam contrários a esta concessão. Esta semana foram divulgados os primeiros casos de contágio nas prisões brasileiras e a morte de um agente carcerário. Chegam denúncias de dezenas de presos com os sintomas, sendo amontoados em celas sem as notificações e cuidados médicos necessários.

Esta semana o governo brasileiro dispôs sobre a autorização para o sepultamento e cremação de pessoas sem a necessidade de um atestado de óbito durante a pandemia. 

Estarrecedor!

Sabemos sobre qual parcela da população esta prática se desdobrará! Recomendação da PFDC encaminhada ontem ao CNJ destaca a necessidade de prevenção ao surgimento de um contingente de casos de pessoas desaparecidas na sequência da emergência sanitária ocasionada pela covid-19. Segundo o documento, é preciso ”resguardar os direitos dos familiares, dependentes e herdeiros da pessoa falecida com a emissão da certidão de óbito a partir de registro civil com informações corretas sobre a sua identificação”, que familiares da vítima possam ter a certeza do óbito, suas causas e circunstâncias, “bem como registro do destino dos restos mortais, de modo a se respeitar, acima de tudo, a possibilidade de exercício do luto”.

O Brasil possui um histórico de graves e contínuas violações de direitos humanos, um país ainda marcado pela negação do direito à memória, verdade e reparação quanto aos crimes recentes praticados contra a humanidade pela ditadura militar. Assim, é preciso cuidado quanto aos procedimentos institucionais para sepultamento e cremação de corpos. Em poucos dias esta bomba irá estourar. O colonialismo pós-moderno se atualiza. É a necropolítica de braços dados com a pandemia ou a pandemia como justificativa para a necropolítica. 

Muitos compartilham a crença de que seremos melhores depois desta tempestade. Me situo ainda do outro lado. Intuo uma jornada longa, de muitas perdas e dor, uma sociedade de mais controle e exclusão, o vírus como justificativa para o acirramento das desigualdade e totalitarismos. 

É preciso repactuar nossa forma de estar no planeta.

Minhas noites tem sido inconstantes. Passei a dormir melhor, mas as lembranças do inconsciente revelam tensões. Sonhei com minha mãe. Em uma primeira aparição ela me veio apenas pela voz, muito grave.  “Reze uma novena, Fabiana”. Já acordada, não segui a sua orientação. Rompi com sua religião na adolescência e ela inda hoje insiste. Tantas vezes me pregou o apocalipse e a miséria de uma vida sem deus... Tenho guardado o seu terço, mãe. Peguei ele nesses dias como um talismã para estar ao lado da cama, mas minha oração seguirá sendo o silêncio, a meditação. Em um segundo sonho ela me fazia companhia numa casa muito precária e parecia também angustiada.  “Permanecerei com você”, disse.

Recordo-me ainda deste. Eu e Charles morávamos em um arranha-céu e de repente um raio acertou o prédio vizinho, inundando-o de fogo. O calor se alastrava pelo ar e chegava até nós. Charles me tomou pelas mãos e começamos a correr, enquanto eu pensava o que levar, o que salvar.

Última noite. Eu estava no alto de um penhasco amarrada com uma corda nos pés e me lancei enquanto ouvia minha própria voz
deixa o dia
se lança na noite



Início da quarentena.


 Quarta-feira, 01 de abril de 2020, 02:43 da madrugada.

A pandemia se alastra
feito um trem-bala desgovernado
a cruzar todos os continentes
e trepidar todos os vagões.

857.487 pessoas infectadas pelo coronavírus hoje, com 39 mil mortes em todo o mundo. A China estabilizou em cerca de 81 mil contaminados e os EUA assumiram o topo da pirâmide com 190 mil, ultrapassando a Itália, que continua em curva ascendente, somando 1,6 mil vítimas fatais nas últimas 24 horas.  No Brasil são 5.717 infectadas e 201 óbitos. Em Minas Gerais, província onde nasci, 275 contraíram o vírus e 02 vieram a falecer até o momento. Vivemos uma roleta russa. Há projeções especulando 2 milhões de mortos, 500 mil somente no Brasil. 

Acordei com falta de ar. Não há como saber se estou infectada, não há testes disponíveis no Brasil para pessoas com sintomas leves. Poderia procurar o centro de atendimento da minha cidade, mas tenho receio de vir a ser contaminada lá, caso ainda não esteja. Também me assusta a possibilidade de ser internada e morrer intubada em uma sala fria entre desconhecidos, como vi acontecer com a minha mãe há 5 anos atrás, depois de um avc. Prefiro morrer em casa, solitária, debaixo do meu cobertor. Mas esta sutil falta de ar, não sei de onde vem... se já é o vírus, a somatização por senti-lo pairando por perto ou mera alergia pela convivência intensa nesses dias com Leminsk e Bukovski, meus gatos.

Retornei de Brasília há oito dias, de avião. Posso ter sido infectada nos aeroportos. Antes, posso ter sido infectada nas ruas, supermercados, padarias ou restaurantes da capital federal. Ou ainda, posso ter sido infectada no meu local de trabalho, no Conselho Nacional de Justiça, em Brasília. Na última quarta feira o ministro Dias Toffoli, presidente do Conselho, se pôs em quarentena. Um dia antes disso, na terça-feira, a equipe de trabalho que integro teve tratativas com ele, quando obtivemos uma importante vitória, a aprovação da Recomendação 62, sobre a situação dos presidiários no contexto da covid-19 - nome técnico dado ao vírus. Contribuí na elaboração do texto, que foi escrito a muitas mãos, com orientação para a libertação de parte significativa das pessoas em situação de encarceramento, visando a redução da catástrofe que certamente irá se abater nas prisões quando o vírus ali se alastrar.  Bastou a quarentena do ministro ter sido anunciada na quarta-feira, para que se decretase o home office de todo o Conselho. No mesmo instante comprei uma passagem para Belo Horizonte. Se tivesse aguardado mais um dia não teria conseguido embarcar, pois o Distrito Federal fechou suas fronteiras na última sexta-feira.

Em Belo Horizonte Charles me aguardava com os gatos, jantar e vinho na mesa. O calor de casa e do meu companheiro me fizeram dormir como há duas semanas já não conseguia. A insônia havia tomado o meu corpo como sintoma frente a trágica realidade que se aproxima.

Desde a minha chegada a Belo Horizonte eu e Charles estamos reclusos em nosso apartamento, com os gatos. Saímos a cada 02 dias por alguns  minutos pela manhã, para uma breve caminhada e banho de sol nas redondezas, quando aproveitamos para irmos a supermercado ou farmácia. O ideal seria permanecermos em casa. Fizemos uma compra de supermercado robusta, com itens não perecíveis que nos permite sobreviver por uns dois meses, mas a possibilidade de ausência de frutas e legumes frescos me deixa atordoada.

banana maracujá
manga ovos
cenoura abóbora
coentro

Alguns amigos já não saem de casa há 10 dias. Eu ainda não consegui. A ausência de sol me causa uma angústia profunda e a falta de caminhada detona dores nos joelhos e lombar. Cada saída à rua nos impõe um ritual que imprimimos há uma semana em nossas vidas. Visto calça e blusa que cubram todo o corpo. Uso um lenço ao redor do pescoço que servirá para proteger meus cabelos e rosto. Levamos um vidro de álcool gel para higienizar as mão ao tocar em qualquer objeto. Mantemos distância de todas as pessoas pelas ruas. Rapidamente se instaurou nos nossos corpos uma tensão ou atenção para manutenção de distância mínima de outros seres, como polos iguais de um ímã a se repelirem. Ao retornar para casa entramos pela porta dos fundos, nos despimos e jogamos as roupas na máquina de lavar, colocamos os  solados dos sapatos numa vasilha com água sanitária e corremos para um banho dos cabelos aos pés, incluindo a lavagem dos óculos. Desinfetamos a casa duas vezes por semana e lavamos as mãos umas trinta vezes por dia. Todos os produtos que entram em casa são desinfetados com água e sabão. Em uma semana tenho sido mais asseada do que em todos os meus 40 anos de vida.

Em Belo Horizonte somente os serviços essenciais continuam abertos mas ainda não se estabeleceu um toque de recolher absoluto. O fluxo de pessoas nas ruas diminuiu consideravelmente, porém há ainda os que, na onda da estupidez do Bolsonaro, insistem em negar e minimizar o tamanho do problema e a necessidade de recolhimento.

Ontem tivemos aprovado pelo Senado a renda mínima para os trabalhadores informais, para que possam se por em quarentena, porém desde então aguardamos o sancionamento pelo presidente. No último sábado eu e algumas amigas fizemos um encontro virtual regado a vinho, nos embebedamos e trocamos sentimentos e presságios sobre este pesadelo que já impõe dramas de saúde e econômicos em nossas vidas e famílias.

Enquanto escrevo, alguém toca piano no apartamento vizinho, outro insone na madrugada. Já são 04:13h. Através da escrita distensiono um pouco os sentidos e minha falta de ar cessa. Mas se volto a pensar na respiração de novo me falta oxigênio. É preciso respirar sem pensar. É preciso meditar. Tenho feito yoga todos os dias. Talvez a falta de ar cesse. Talvez eu não esteja infectada.