sábado, 13 de junho de 2020

Carta pra tentar entender



Um ato de despedida
acende cada gota de orvalho,
cada ínfimo tempo,
cada olhar,
cada gesto,
cada abraço.

As histórias interrompidas
se amontoam,
o beijo frustrado,
o coração partido,
a filha sem mãe,
a mulher sem marido,
a neta sem vó,
o jantar abandonado.

Saiu de casa com falta de ar
para proteger os seus,
para se resguardar
e esperava voltar.

Olhou pro lado em um átimo
de consciência, estava
só e entubada.
O último suspiro, solitário
não abrigou ínfima
despedida.

O corpo gélido foi posto num saco
e jogado em um buraco,
terra lançada por um trator,
sem lápide ou flor,
enterro sem velório,
missa fúnebre
de tão vazia e insossa,
sem choro, templo oco,
indolor.

E agora inda esse cheiro,
inda tuas coisas quentes
no guarda-roupa e esparramadas
e uma vela de sete dias pela senhora acendida
antes de sair e até agora fazendo sombras
na parede da sala.

e seu vulto a rondar a casa
de dia e inda depois, de noite
e na hora que tu acordava e coava o café
no alvorecer da madrugada.

Rezo e acendo do último respiro
da sua, uma nova vela
que é para fazer
cada uma de nós
entender:

Tu e eu,
quem está viva
e quem jaz,
que diferença faz?

90 DIAS




400 mil mortos no mundo
40 mil mortos no Brasil

*************

 
Sim, sou eu, Bia Lile.
E este é o meu país, com suas chagas e mortos.
E  estes são meus escritos agnósticos.
E esta é a minha pulsão,
meu uivo raiva e respiro,
minha perplexidade.

Me sei ainda viva, é verdade.

Mas minha sanidade transita
entre opostos,
lambe o céu num respiro
depois mergulha fundo
em asfixia e autoflagelo.

É bom viver para ver?
Posso eu sobreviver e testemunhar
a miséria que se instaura e nos arrasta,
para além da morte morrida,
a morte matada
do povo preto, índio, pobre
desta e de quantas outras
e próximas gerações?

Posso eu voltar a sorrir
depois de tanto me faltar ar?
E tudo isso há de passar?
E como ousar esquecer
E como ousar respirar
E como ousar hospedar
de novo um horizonte,
um céu e um mar?