quinta-feira, 30 de julho de 2020

Fernanda

Nos conhecemos há pouco mais
de um ano,
no projeto que inda hoje me emprega
e nossa relação se afirmou
por meio de uma singela afinidade:
o ofício de costurar folhas.

Logo nos primeiros dias
ela nos presenteou com uma agendinha
produzida pelas próprias mãos.

Me lembro inda hoje o dia.
Ela passou de mesa em mesa
entregando para cada uma seu mimo
e quando chegou em mim,
a retive ao lado.

Revelei ali, tímida,
como quem descobre na outra
a mesma embriaguez
que a faz respirar,
no ano anterior
ter eu dado vida a brochuras,
mas eram inda desajeitadas,
como uma criança
a não se saber firmar.

E confessei inda o desejo
de que o meu primeiro
livro de poesias
fosse artesanalmente colhido
e cada exemplar carregasse
uma composição inédita
para ele bordado.

Pedi que ela um dia
me ensinasse
a ser tão precisa artesã
e confiamos num futuro próximo
um encontro de tecelãs.

Também lhe confiei
que este amor por cadernos
me fazia colecioná-los intocados,
incapaz de batizá-los
com um rabisco sequer,
como se qualquer palavra
pousada no silêncio de uma página
a ferisse em rachaduras.

O caderno impoluto medita.

Neste dia em que batizamos
o nosso segredo,
encomendei três novos livretos
e ela só me entregou dois
porque a sobrecarga do ganha-pão
não a permitiu costurar terceiro.

Aquele que ela não entregou
virou promessa estendida
para todo mês que vem,
motivo de gargalhadas
e desculpas esfarrapadas
para eu ir ter com ela
prosear no meio do expediente
e de quebra ganhar abraços.

Admirava o primor do acabamento
de cada  novo esculpido,
a eleição do tecido para a capa,
a cor da linha para a borda,
a precisão no corte das folhagens
e ela com um sorriso quente acolhia
os elogios que como água eu a banhava.

Um desses cadernos é hoje
habitat de poemas meus.

Na última vez que nos falamos
manifestei o meu carinho
e admiração por seu existir.
Já vivíamos sob o manto denso
da pandemia e o gélido vento
das despedidas.

Fernanda é a primeira vítima de convid
dentro do meu mundo de afetos.

Penso nela dias antes
pelos seus próprios pés
se dirigindo ao hospital,
depois de ligar para a mãe,
a namorada
e meia dúzia de amigas pra dizer
_ Vai ficar tudo bem.

Partiu depois de dias
em luta internada.

Não chorei a sua passagem.

Há um oco
como se qualquer lágrima ou dor
por tão insignificante desrespeitasse
a imensidão da sua existência.

Te guardarei em mim, Fê.
E também comigo guardarei
o teu sorriso mais sincero
de cumplicidade e delicadeza,
que sabia se abrir feito girassol
quando acolhida por um raio de luz.




sexta-feira, 17 de julho de 2020

120 DIAS

Chegamos a 601.000 mortos. 
Enquanto os Estados Unidos lideram a assombrosa primeira posição com 140.000, o Brasil enterrou até ontem 77.000 vidas. Mas isso não é resultado de uma trágica fatalidade, apenas.  Reflete a soma de centenas de decisões políticas cotidianas incisivas, categóricas, perversamente maquinadas para a morte. O quanto se morre no Brasil sequer pode ser acolhido como omissão. Trata-se de um poder de estado orquestrado para a eliminação daqueles que considera inadequados. Chacina. 

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Hiberno física e psicologicamente

como um esquilo,
um morcego, um ouriço,
um rato-silvestre,
ou um qualquer
animal homeotermo
na travessia deste denso inverno.

Abandonei a tv, o facebook
e os grupos de whatsApp,
me recolhi ao orgânico,
ao que posso ler com as mãos,
à densidade do ébano,
aos aromas, à leitura, à escrita,
aos dedos sobre o piano,
ao aprender cotidiano
sobre viver.

O mundo me assusta.
Parece tudo errado,
tudo virado
e um denso desejo de justiça
me consome.

Desejo é pulsão de vida
como o vermelho, 
o quente
e o sangue.

Hiberno como Perséfone
à espreita de uma próxima 
primavera.


quarta-feira, 15 de julho de 2020

insônia



Só expressa quem sente.

Mas e se o tédio ou o amor,
a fúria, o estupor
ou o estado aum
o absorve
sem um levante consciente?

A arte só retém
o que da realidade
arranca nos dentes

e deixa escapar
em desalinho o que nela
era ausente.


quinta-feira, 2 de julho de 2020

espelho


 
Nesta noite me veio visitar
uma velha sem alegrias, nostalgias
e destemperanças.

Este ser enrugado
e desconhecido,
de cabelos índios muito longos
que no sonho aos olhos de um eu 
sequer se parecia,
de olhar pro chão
e caverna no peito,
carrega dentro de si
o ser que em mim
nascia.

Em uma casa solitária a vagar
com um copo de barro
caminha pausado,
como quem pode cair
do precipício instaurado
pelo próprio passo.

Em último lance,
firme como se
previamente pensado,
bebe alguns goles do copo e
derrama todo o resto do líquido
encharcando o sofá
onde logo em seguida se deita
de barriga para baixo.

Sem pensar ou já muito antes premeditado
em seguida risca um fósforo
e em um átimo
o corpo arde
em chamas.

Eu acordo
como de um susto
e coração acelerado.

Esta velha que nem sabia existir,
antes mesmo de se apresentar
ou como fundamento
para o nosso laço,
sem ínfimo lamento
e como num sopro
instaura  primevo ato:

expurgar o medo,
restaurar o tato.