Nos conhecemos há pouco mais
de um ano,
no projeto que inda hoje me emprega
e nossa relação se afirmou
por meio de uma singela afinidade:
o ofício de costurar folhas.
Logo nos primeiros dias
ela nos presenteou com uma agendinha
produzida pelas próprias mãos.
Me lembro inda hoje o dia.
Ela passou de mesa em mesa
entregando para cada uma seu mimo
e quando chegou em mim,
a retive ao lado.
Revelei ali, tímida,
como quem descobre na outra
a mesma embriaguez
que a faz respirar,
no ano anterior
ter eu dado vida a brochuras,
mas eram inda desajeitadas,
como uma criança
a não se saber firmar.
E confessei inda o desejo
de que o meu primeiro
livro de poesias
fosse artesanalmente colhido
e cada exemplar carregasse
uma composição inédita
para ele bordado.
Pedi que ela um dia
me ensinasse
a ser tão precisa artesã
e confiamos num futuro próximo
um encontro de tecelãs.
Também lhe confiei
que este amor por cadernos
me fazia colecioná-los intocados,
incapaz de batizá-los
com um rabisco sequer,
como se qualquer palavra
pousada no silêncio de uma página
a ferisse em rachaduras.
O caderno impoluto medita.
Neste dia em que batizamos
o nosso segredo,
encomendei três novos livretos
e ela só me entregou dois
porque a sobrecarga do ganha-pão
não a permitiu costurar terceiro.
Aquele que ela não entregou
virou promessa estendida
para todo mês que vem,
motivo de gargalhadas
e desculpas esfarrapadas
para eu ir ter com ela
prosear no meio do expediente
e de quebra ganhar abraços.
Admirava o primor do acabamento
de cada novo esculpido,
a eleição do tecido para a capa,
a cor da linha para a borda,
a precisão no corte das folhagens
e ela com um sorriso quente acolhia
os elogios que como água eu a banhava.
Um desses cadernos é hoje
habitat de poemas meus.
Na última vez que nos falamos
manifestei o meu carinho
e admiração por seu existir.
Já vivíamos sob o manto denso
da pandemia e o gélido vento
das despedidas.
Fernanda é a primeira vítima de convid
dentro do meu mundo de afetos.
Penso nela dias antes
pelos seus próprios pés
se dirigindo ao hospital,
depois de ligar para a mãe,
a namorada
e meia dúzia de amigas pra dizer
_ Vai ficar tudo bem.
Partiu depois de dias
em luta internada.
Não chorei a sua passagem.
Há um oco
como se qualquer lágrima ou dor
por tão insignificante desrespeitasse
a imensidão da sua existência.
Te guardarei em mim, Fê.
E também comigo guardarei
o teu sorriso mais sincero
de cumplicidade e delicadeza,
que sabia se abrir feito girassol
quando acolhida por um raio de luz.
de um ano,
no projeto que inda hoje me emprega
e nossa relação se afirmou
por meio de uma singela afinidade:
o ofício de costurar folhas.
Logo nos primeiros dias
ela nos presenteou com uma agendinha
produzida pelas próprias mãos.
Me lembro inda hoje o dia.
Ela passou de mesa em mesa
entregando para cada uma seu mimo
e quando chegou em mim,
a retive ao lado.
Revelei ali, tímida,
como quem descobre na outra
a mesma embriaguez
que a faz respirar,
no ano anterior
ter eu dado vida a brochuras,
mas eram inda desajeitadas,
como uma criança
a não se saber firmar.
E confessei inda o desejo
de que o meu primeiro
livro de poesias
fosse artesanalmente colhido
e cada exemplar carregasse
uma composição inédita
para ele bordado.
Pedi que ela um dia
me ensinasse
a ser tão precisa artesã
e confiamos num futuro próximo
um encontro de tecelãs.
Também lhe confiei
que este amor por cadernos
me fazia colecioná-los intocados,
incapaz de batizá-los
com um rabisco sequer,
como se qualquer palavra
pousada no silêncio de uma página
a ferisse em rachaduras.
O caderno impoluto medita.
Neste dia em que batizamos
o nosso segredo,
encomendei três novos livretos
e ela só me entregou dois
porque a sobrecarga do ganha-pão
não a permitiu costurar terceiro.
Aquele que ela não entregou
virou promessa estendida
para todo mês que vem,
motivo de gargalhadas
e desculpas esfarrapadas
para eu ir ter com ela
prosear no meio do expediente
e de quebra ganhar abraços.
Admirava o primor do acabamento
de cada novo esculpido,
a eleição do tecido para a capa,
a cor da linha para a borda,
a precisão no corte das folhagens
e ela com um sorriso quente acolhia
os elogios que como água eu a banhava.
Um desses cadernos é hoje
habitat de poemas meus.
Na última vez que nos falamos
manifestei o meu carinho
e admiração por seu existir.
Já vivíamos sob o manto denso
da pandemia e o gélido vento
das despedidas.
Fernanda é a primeira vítima de convid
dentro do meu mundo de afetos.
Penso nela dias antes
pelos seus próprios pés
se dirigindo ao hospital,
depois de ligar para a mãe,
a namorada
e meia dúzia de amigas pra dizer
_ Vai ficar tudo bem.
Partiu depois de dias
em luta internada.
Não chorei a sua passagem.
Há um oco
como se qualquer lágrima ou dor
por tão insignificante desrespeitasse
a imensidão da sua existência.
Te guardarei em mim, Fê.
E também comigo guardarei
o teu sorriso mais sincero
de cumplicidade e delicadeza,
que sabia se abrir feito girassol
quando acolhida por um raio de luz.