Um ato de despedida
acende cada gota de orvalho, cada ínfimo tempo,
cada olhar,
cada gesto,
cada abraço.
As histórias interrompidas
se amontoam,
o beijo frustrado,
o coração partido,
a filha sem mãe,
a mulher sem marido,
a neta sem vó,
o jantar abandonado.
Saiu de casa com falta de ar
para proteger os seus,
para se resguardar
e esperava voltar.
Olhou pro lado em um átimo
de consciência, estava
só e entubada.
O último suspiro, solitário
não abrigou ínfima
despedida.
O corpo gélido foi posto num saco
e jogado em um buraco,
terra lançada por um trator,
sem lápide ou flor,
enterro sem velório,
missa fúnebre
de tão vazia e insossa,
sem choro, templo oco,
indolor.
E agora inda esse cheiro,
inda tuas coisas quentes
no guarda-roupa e esparramadas
e uma vela de sete dias pela senhora acendida
antes de sair e até agora fazendo sombras
na parede da sala.
e seu vulto a rondar a casa
de dia e inda depois, de noite
e na hora que tu acordava e coava o café
no alvorecer da madrugada.
Rezo e acendo do último respiro
da sua, uma nova vela
que é para fazer
cada uma de nós
entender:
Tu e eu,
quem está viva
e quem jaz,
que diferença faz?