sexta-feira, 17 de julho de 2020

120 DIAS

Chegamos a 601.000 mortos. 
Enquanto os Estados Unidos lideram a assombrosa primeira posição com 140.000, o Brasil enterrou até ontem 77.000 vidas. Mas isso não é resultado de uma trágica fatalidade, apenas.  Reflete a soma de centenas de decisões políticas cotidianas incisivas, categóricas, perversamente maquinadas para a morte. O quanto se morre no Brasil sequer pode ser acolhido como omissão. Trata-se de um poder de estado orquestrado para a eliminação daqueles que considera inadequados. Chacina. 

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Hiberno física e psicologicamente

como um esquilo,
um morcego, um ouriço,
um rato-silvestre,
ou um qualquer
animal homeotermo
na travessia deste denso inverno.

Abandonei a tv, o facebook
e os grupos de whatsApp,
me recolhi ao orgânico,
ao que posso ler com as mãos,
à densidade do ébano,
aos aromas, à leitura, à escrita,
aos dedos sobre o piano,
ao aprender cotidiano
sobre viver.

O mundo me assusta.
Parece tudo errado,
tudo virado
e um denso desejo de justiça
me consome.

Desejo é pulsão de vida
como o vermelho, 
o quente
e o sangue.

Hiberno como Perséfone
à espreita de uma próxima 
primavera.