A tristeza que sinto
tem a mesma cor leitosa
que carrego no nome
e me colore a pele.
É a tristeza de um eu sem povo,
de um corpo sem território.
A tristeza que me circunda
nasceu comigo
e foi parida antes de mim.
Mesmo minha mãe,
que tinha traços indígenas,
trazia em si esse nó na garganta
que hoje sei,
atravessou também a minha avó
e antes a minha tataravó,
laçada e arrancada da sua terra
para servir a um homem branco.
Sou a mais pálida de todas essas mulheres
que compõe a minha ancestralidade
e nesta linha de embranquecimento
herdei este sentimento.
Sou eu desde lá a mais triste?
E agora
este calor que me toma o corpo
a esta altura da vida
anuncia o arrebol
da semente.
Não haverá broto.
Neste corpo
cessará a dor
que vem de antes,
que cesse em mim.
Cumpro a profecia
que inda menina
jurei para minha mãe
e para mim:
Não terei filhos, mãe.
Essa tristeza nossa
cessará em mim.
Serei a última de nós,
de toda nossa encarnação,
a libertação, a superação,
sentido primevo
e autêntico não.