quarta-feira, 8 de abril de 2020

Aquietar.


Sábado, 04 de abril de 2020, 13:23 da tarde.

Em 03 dias o Brasil dobrou o número de infectados, chegando a mais de 10 mil. Mas há os que digam já passarmos dos 30 mil, considerando a subnotificação.

Há cinco dias não saio de casa. Aos poucos o corpo se acomoda com o confinamento e o sentimento se inverte. Se na primeira semana buscava desculpas para sair, agora adio a necessidade de fazê-lo. A rua se tornou um campo minado e todo o ritual de cuidados para atravessar a linha divisória pode ser em vão. Nenhum movimento além da porta é seguro. É preciso serenidade para permanecer aqui. É preciso parar.

Foi uma semana de superação. Venci os primeiros 14 dias desde a vinda de Brasília. 14 dias. Tempo da manifestação do vírus. Me convenci que a falta de ar não era o vírus. Comecei a tomar antialérgico e adquiri novos hábitos contra a ansiedade. Atividades aeróbicas, florais, chá de camomila. Arrastei o sofá para baixo da janela da sala, por onde o sol invade o apartamento. Esta nova configuração permite a mim e Charles um banho de sol com Buk e Leminsk depois do café da manhã enquanto ouvimos músicas e folheamos algo.

Acabo de escrever este parágrafo e paro para cozinhar e ver um pouco de televisão. No jornal se noticia a distribuição de cestas básicas em Salvador e uma multidão se aglomera para tentar salvar alguma. Me situo entre a classe média branca privilegiada, a quem foi concedido o direito de trabalhar em casa e se resguardar do contagio, enquanto uma grande parcela da população, povo preto deste país, em um contexto de ainda mais miséria e escassez, luta para por o básico em sua mesa.

A rotina de home office é cansativa, mas nunca o trabalho fez tanto sentido. Sensação de naufrágio. Enquanto alguns tentam colaborar e esvaziam o barco com seus pequenos frascos, outros, com poder de estado para distribuir coletes salva-vidas à população, vestem apenas os seus e pensam poder fugir em suas lanchas privativas. Trilhões já foram direcionados aos bancos, enquanto a renda básica aos trabalhadores informais e desempregados ainda depende de regularização. Lutamos para libertar pessoas das masmorras brasileiras enquanto Moro entoa a voz dos que se posicionam contrários a esta concessão. Esta semana foram divulgados os primeiros casos de contágio nas prisões brasileiras e a morte de um agente carcerário. Chegam denúncias de dezenas de presos com os sintomas, sendo amontoados em celas sem as notificações e cuidados médicos necessários.

Esta semana o governo brasileiro dispôs sobre a autorização para o sepultamento e cremação de pessoas sem a necessidade de um atestado de óbito durante a pandemia. 

Estarrecedor!

Sabemos sobre qual parcela da população esta prática se desdobrará! Recomendação da PFDC encaminhada ontem ao CNJ destaca a necessidade de prevenção ao surgimento de um contingente de casos de pessoas desaparecidas na sequência da emergência sanitária ocasionada pela covid-19. Segundo o documento, é preciso ”resguardar os direitos dos familiares, dependentes e herdeiros da pessoa falecida com a emissão da certidão de óbito a partir de registro civil com informações corretas sobre a sua identificação”, que familiares da vítima possam ter a certeza do óbito, suas causas e circunstâncias, “bem como registro do destino dos restos mortais, de modo a se respeitar, acima de tudo, a possibilidade de exercício do luto”.

O Brasil possui um histórico de graves e contínuas violações de direitos humanos, um país ainda marcado pela negação do direito à memória, verdade e reparação quanto aos crimes recentes praticados contra a humanidade pela ditadura militar. Assim, é preciso cuidado quanto aos procedimentos institucionais para sepultamento e cremação de corpos. Em poucos dias esta bomba irá estourar. O colonialismo pós-moderno se atualiza. É a necropolítica de braços dados com a pandemia ou a pandemia como justificativa para a necropolítica. 

Muitos compartilham a crença de que seremos melhores depois desta tempestade. Me situo ainda do outro lado. Intuo uma jornada longa, de muitas perdas e dor, uma sociedade de mais controle e exclusão, o vírus como justificativa para o acirramento das desigualdade e totalitarismos. 

É preciso repactuar nossa forma de estar no planeta.

Minhas noites tem sido inconstantes. Passei a dormir melhor, mas as lembranças do inconsciente revelam tensões. Sonhei com minha mãe. Em uma primeira aparição ela me veio apenas pela voz, muito grave.  “Reze uma novena, Fabiana”. Já acordada, não segui a sua orientação. Rompi com sua religião na adolescência e ela inda hoje insiste. Tantas vezes me pregou o apocalipse e a miséria de uma vida sem deus... Tenho guardado o seu terço, mãe. Peguei ele nesses dias como um talismã para estar ao lado da cama, mas minha oração seguirá sendo o silêncio, a meditação. Em um segundo sonho ela me fazia companhia numa casa muito precária e parecia também angustiada.  “Permanecerei com você”, disse.

Recordo-me ainda deste. Eu e Charles morávamos em um arranha-céu e de repente um raio acertou o prédio vizinho, inundando-o de fogo. O calor se alastrava pelo ar e chegava até nós. Charles me tomou pelas mãos e começamos a correr, enquanto eu pensava o que levar, o que salvar.

Última noite. Eu estava no alto de um penhasco amarrada com uma corda nos pés e me lancei enquanto ouvia minha própria voz
deixa o dia
se lança na noite