Quarta-feira, 01 de abril de 2020, 02:43 da madrugada.
A pandemia se alastra
feito um trem-bala desgovernado
a cruzar todos os continentes
e trepidar todos os vagões.
857.487 pessoas infectadas pelo coronavírus hoje, com 39 mil mortes em todo o mundo. A China estabilizou em cerca de 81 mil contaminados e os EUA assumiram o topo da pirâmide com 190 mil, ultrapassando a Itália, que continua em curva ascendente, somando 1,6 mil vítimas fatais nas últimas 24 horas. No Brasil são 5.717 infectadas e 201 óbitos. Em Minas Gerais, província onde nasci, 275 contraíram o vírus e 02 vieram a falecer até o momento. Vivemos uma roleta russa. Há projeções especulando 2 milhões de mortos, 500 mil somente no Brasil.
Acordei com falta de ar. Não há como saber se estou infectada, não há testes disponíveis no Brasil para pessoas com sintomas leves. Poderia procurar o centro de atendimento da minha cidade, mas tenho receio de vir a ser contaminada lá, caso ainda não esteja. Também me assusta a possibilidade de ser internada e morrer intubada em uma sala fria entre desconhecidos, como vi acontecer com a minha mãe há 5 anos atrás, depois de um avc. Prefiro morrer em casa, solitária, debaixo do meu cobertor. Mas esta sutil falta de ar, não sei de onde vem... se já é o vírus, a somatização por senti-lo pairando por perto ou mera alergia pela convivência intensa nesses dias com Leminsk e Bukovski, meus gatos.
Retornei de Brasília há oito dias, de avião. Posso ter sido infectada nos aeroportos. Antes, posso ter sido infectada nas ruas, supermercados, padarias ou restaurantes da capital federal. Ou ainda, posso ter sido infectada no meu local de trabalho, no Conselho Nacional de Justiça, em Brasília. Na última quarta feira o ministro Dias Toffoli, presidente do Conselho, se pôs em quarentena. Um dia antes disso, na terça-feira, a equipe de trabalho que integro teve tratativas com ele, quando obtivemos uma importante vitória, a aprovação da Recomendação 62, sobre a situação dos presidiários no contexto da covid-19 - nome técnico dado ao vírus. Contribuí na elaboração do texto, que foi escrito a muitas mãos, com orientação para a libertação de parte significativa das pessoas em situação de encarceramento, visando a redução da catástrofe que certamente irá se abater nas prisões quando o vírus ali se alastrar. Bastou a quarentena do ministro ter sido anunciada na quarta-feira, para que se decretase o home office de todo o Conselho. No mesmo instante comprei uma passagem para Belo Horizonte. Se tivesse aguardado mais um dia não teria conseguido embarcar, pois o Distrito Federal fechou suas fronteiras na última sexta-feira.
Em Belo Horizonte Charles me aguardava com os gatos, jantar e vinho na mesa. O calor de casa e do meu companheiro me fizeram dormir como há duas semanas já não conseguia. A insônia havia tomado o meu corpo como sintoma frente a trágica realidade que se aproxima.
Desde a minha chegada a Belo Horizonte eu e Charles estamos reclusos em nosso apartamento, com os gatos. Saímos a cada 02 dias por alguns minutos pela manhã, para uma breve caminhada e banho de sol nas redondezas, quando aproveitamos para irmos a supermercado ou farmácia. O ideal seria permanecermos em casa. Fizemos uma compra de supermercado robusta, com itens não perecíveis que nos permite sobreviver por uns dois meses, mas a possibilidade de ausência de frutas e legumes frescos me deixa atordoada.
banana maracujá
manga ovos
cenoura abóbora
coentro
Alguns amigos já não saem de casa há 10 dias. Eu ainda não consegui. A ausência de sol me causa uma angústia profunda e a falta de caminhada detona dores nos joelhos e lombar. Cada saída à rua nos impõe um ritual que imprimimos há uma semana em nossas vidas. Visto calça e blusa que cubram todo o corpo. Uso um lenço ao redor do pescoço que servirá para proteger meus cabelos e rosto. Levamos um vidro de álcool gel para higienizar as mão ao tocar em qualquer objeto. Mantemos distância de todas as pessoas pelas ruas. Rapidamente se instaurou nos nossos corpos uma tensão ou atenção para manutenção de distância mínima de outros seres, como polos iguais de um ímã a se repelirem. Ao retornar para casa entramos pela porta dos fundos, nos despimos e jogamos as roupas na máquina de lavar, colocamos os solados dos sapatos numa vasilha com água sanitária e corremos para um banho dos cabelos aos pés, incluindo a lavagem dos óculos. Desinfetamos a casa duas vezes por semana e lavamos as mãos umas trinta vezes por dia. Todos os produtos que entram em casa são desinfetados com água e sabão. Em uma semana tenho sido mais asseada do que em todos os meus 40 anos de vida.
Em Belo Horizonte somente os serviços essenciais continuam abertos mas ainda não se estabeleceu um toque de recolher absoluto. O fluxo de pessoas nas ruas diminuiu consideravelmente, porém há ainda os que, na onda da estupidez do Bolsonaro, insistem em negar e minimizar o tamanho do problema e a necessidade de recolhimento.
Ontem tivemos aprovado pelo Senado a renda mínima para os trabalhadores informais, para que possam se por em quarentena, porém desde então aguardamos o sancionamento pelo presidente. No último sábado eu e algumas amigas fizemos um encontro virtual regado a vinho, nos embebedamos e trocamos sentimentos e presságios sobre este pesadelo que já impõe dramas de saúde e econômicos em nossas vidas e famílias.
Enquanto escrevo, alguém toca piano no apartamento vizinho, outro insone na madrugada. Já são 04:13h. Através da escrita distensiono um pouco os sentidos e minha falta de ar cessa. Mas se volto a pensar na respiração de novo me falta oxigênio. É preciso respirar sem pensar. É preciso meditar. Tenho feito yoga todos os dias. Talvez a falta de ar cesse. Talvez eu não esteja infectada.