quinta-feira, 6 de maio de 2021

RASO DA CATARINA

 

os dias pesam toneladas

se arrastam e me chacoalham


na pele se inscrevem profundos acidentes

e a água que era muita agora falta pra uma lágrima


- ando seca, de verdade.


uma dor na lombar 

uma falta de ar

um pólipo retirado do intestino

ondas de calores e frios

dores articulares

insônia enxaqueca boca seca

e de novo

falta de ar


o coração, 

disse a cardiologista, 

anda um pouco mais fraco

do que o recomendado

- vou te pedir um raio x do tórax


o riso mais curto

os sonhos soturnos

as caminhadas mais longas

para fazer desmoronar 

as pálpebras ao me deitar


faltam abraços 

e quase já não reconheço 

em mim um sorriso 

- a alegria se escondeu 


 me enrosco no tempo

em estado de desenraizamento


é noite


lá fora a mesma neblina milenar sobre Conquista

encobre as terras onde posso sentir pulsarem

minhas ancestrais


onde estás, minha mãe,

onde estás, Paulo Tiago

que não aqui para atravessarem

comigo esta imensa tempestade,

essa, quem diria,

apocalíptica travessia?