os dias pesam toneladas
se arrastam e me chacoalham
na pele se inscrevem profundos acidentes
e a água que era muita agora falta pra uma lágrima
- ando seca, de verdade.
uma dor na lombar
uma falta de ar
um pólipo retirado do intestino
ondas de calores e frios
dores articulares
insônia enxaqueca boca seca
e de novo
falta de ar
o coração,
disse a cardiologista,
anda um pouco mais fraco
do que o recomendado
- vou te pedir um raio x do tórax
o riso mais curto
os sonhos soturnos
as caminhadas mais longas
para fazer desmoronar
as pálpebras ao me deitar
faltam abraços
e quase já não reconheço
em mim um sorriso
- a alegria se escondeu
me enrosco no tempo
em estado de desenraizamento
é noite
lá fora a mesma neblina milenar sobre Conquista
encobre as terras onde posso sentir pulsarem
minhas ancestrais
onde estás, minha mãe,
onde estás, Paulo Tiago
que não aqui para atravessarem
comigo esta imensa tempestade,
essa, quem diria,
apocalíptica travessia?