O ato instante sem forma.
O quadro intuição sem régua.
A personagem atuação sem gesto.
O que não me serve esteve sempre guardado
e o que me cabe,
intempestiva
passagem.
Meu improviso não é meu,
é retalho no tabuleiro
e vem antes, bem antes de mim,
inscrito na garganta como eco ancestral.
A poesia mal dita não arma cavalete, atira pedras
na rima fácil e tropeça sôfrega
como sobre trilhos desencarrilhados.
Pigarreio e lanço uma praga
aos que operam os refletores,
a luz me cega e erro o passo
no dia em que acreditava plena
em aplausos.
Ponho a mão sobre os olhos
e em meio a sombras
enxergo uma casa repleta de corpos
ávidos por meu mais simplório texto.
Silêncio. Uma campainha.
Corro para o fundo do palco.
Intervalo.
Foi me garantido um tempo?
Como a um preso um banho de sol?
Como a um cego uma vista para o mar?
Como a um famélico um prato de comida?
Como a uma deusa o dom da criação?
Inspiro longamente aliviada
e expiro exortando os diabos
Os bastidores são como uma imensa noite
em que a insônia não me veio visitar.
Os bastidores guardam corredores
de onde se é possível avistar
pequenos feixes de luz
no fim do túnel.
O sol que antevejo lá fora
porta mais calor
do que os abraços aqui dentro.
Avisto um recomeço.
Afinal,
há saída desse espetáculo
em que interpreto
este ser que inda hoje
desconheço?