sábado, 8 de maio de 2021

SALTIMBANCO

 

O ato instante sem forma.

O quadro intuição sem régua.

A personagem atuação sem gesto.


O que não me serve esteve sempre guardado

e o que me cabe, 

                        intempestiva 

                        passagem.


Meu improviso não é meu, 

é retalho no tabuleiro

e vem antes,  bem antes de mim,

inscrito na garganta como eco ancestral.


A poesia mal dita não arma cavalete, atira pedras

na rima fácil e tropeça sôfrega

como sobre trilhos desencarrilhados.


Pigarreio e lanço uma praga

aos que operam os refletores,

a luz me cega e erro o passo 

no dia em que acreditava plena

em aplausos.


Ponho a mão sobre os olhos

e em meio a sombras

enxergo uma casa repleta de corpos

ávidos por meu mais simplório texto.


Silêncio. Uma campainha.

Corro para o fundo do palco.

Intervalo.


Foi me garantido um tempo?

Como a um preso um banho de sol?

Como a um cego uma vista para o mar?

Como a um famélico um prato de comida?

Como a uma deusa o dom da criação?


Inspiro longamente aliviada

e expiro exortando os diabos


Os bastidores são como uma imensa noite

em que a insônia não me veio visitar.


Os bastidores guardam corredores 

de onde se é possível avistar

pequenos feixes de luz 

no fim do túnel.


O sol que antevejo lá fora 

porta mais calor

do que os abraços aqui dentro.


Avisto um recomeço.


Afinal,

há saída desse espetáculo

em que interpreto

este ser que inda hoje

desconheço?